Um pouco por toda a América Latina, seja como consequência das diversas ditaduras que fustigaram grande parte das nações do continente, seja por força de conflitos entre guerrilhas e governos, grupos paramilitares ou até pela interferência do narcotráfico, são várias as histórias de busca por entes desaparecidos.

Basta pensar, recentemente, em filmes como Nuestras madres, de César Díaz, que entrava pela Guatemala adentro e pela operação de identificação de corpos chacinados durante a guerra civil, ou La Civil, no México, onde a cineasta romena Teodora Ana Mihai acompanhava a transformação de uma mãe numa investigadora informal, obrigada a penetrar num território dominado por cartéis e pela ausência quase total do Estado.

É nesse mapa de feridas por sarar que se inscreve Five Years, Four Months, o novo filme de Juan Miguel Gelacio e Esteban Hoyos García, dupla que no passado nos ofereceu Selva, retrato de um homem perdido numa Bogotá atravessada pelos sinais da deriva existencial. Ao seu jeito, esse era também um filme de ausências, mas o pessoal e interior passa agora para o físico e coletivo através da história de Martha (Jenny Nava), uma mulher em busca do filho desaparecido no auge dos conflitos entre o governo e grupos rebeldes.

Fazendo dessa busca uma forma de manter o filho vivo, mesmo que todos os sinais apontem em sentido contrário, esta é uma história de persistência e memória, alinhando-se com outros filmes da mesma geografia, como Los silencios, de Beatriz Seigner, que acompanhava uma mulher colombiana confrontada com a ausência do marido e da filha num território de fronteira, ou Hasta que se apague el sol, de Jonas Brander, onde seguíamos outra mulher, Luz Marina Bernal, na luta contra o encobrimento dos chamados “falsos positivos” — execuções extrajudiciais cometidas por membros do Exército colombiano, em que jovens pobres ou vulneráveis eram assassinados e depois apresentados oficialmente como guerrilheiros mortos em combate.

Num país marcado por décadas de conflito armado, violência paramilitar, guerrilha e narcotráfico, Five Years, Four Months foca-se assim numa figura recorrente no cinema latino-americano: a mulher que procura incessantemente respostas quando as instituições falham e que insiste quando a justiça olha para o lado.

A grande força do filme de Juan Miguel Gelacio e Esteban Hoyos García, cujas escolhas estilísticas o levam para o terreno da contenção, está na construção que Jenny Nava faz de Martha, nunca uma figura de sofrimento monumental, nem um mero símbolo, mas alguém com tanto de cansaço como de obstinação. Transformando a espera pela verdade num modo de vida, Martha tem ainda outro filho, mas não desiste de encontrar quem desapareceu, mesmo que a própria mãe, ou uma amiga que lhe empresta dinheiro, insistam que há um momento em que tem de parar e pensar nos que estão ao seu lado. De nada serve. A dúvida corrói, mas mantém viva a esperança.

É nessa jornada de busca — que no filme começa numa vala comum — que Martha conhece Sandra (Carmiña Martínez), uma mulher mais velha que também procura o filho, desaparecido há 24 anos. Realçando a solidariedade feminina que atravessa todo o filme, Sandra convence Martha a partir com ela para o interior da Colômbia, numa zona ainda extremamente perigosa, em busca de respostas. Inicia-se, assim, uma busca quimérica, numa espécie de estado de transe e de suspensão do tempo, até surgir uma resposta final que não desfaz a dor, mas lhe dá finalmente forma.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/2t26
Pontuação Geral
Jorge Pereira
five-years-four-months-a-dor-sem-corpo-a-esperanca-sem-descansoUma busca quimérica, numa espécie de estado de transe e de suspensão do tempo, até surgir uma resposta final que não desfaz a dor, mas lhe dá finalmente forma