Cineasta e coreógrafa que trabalha na intersecção de imagens e corpos em movimento, com instalações como “Crowds” na bagagem, one investiga a coreografia de tipologias de multidão e os deslizamentos entre elas, a norte-americana Sarah Friedland embarcou na sua primeira longa-metragem com “Familiar Touch”, um drama impulsionado por uma atuação magistral de Kathleen Chalfant na pele de uma mulher que tem de se adaptar a viver. até ao fim dos seus dias, sob assistência numa casa de repouso.
Construído em estreita colaboração com os residentes e funcionários da Villa Gardens, uma comunidade entregue a cuidados continuados na Califórnia, que participaram no elenco e equipe técnica deste filme, “Familiar Touch” tem tanto de delicadeza e economia de procedimentos, como brutalidade perante uma condição de dependência.
É ainda na casa do filho. Steven (H. Jon Benjamin), que somos introduzidos a Ruth (Chalafant numa atuação primorosa), uma octogenária que se lembra criteriosamente de todas as receitas culinárias que usou e criou em vida, de várias palavras começadas pela letra F, mas que esqueceu a existência do próprio filho. “Eu não sou mãe” e “nunca quis ter filhos”, diz ela surpreendida quando o homem que está ao seu lado, que achava ser seu pretendente, diz que é afinal o seu descendente, mostrando nisto um processo de demência em plena atividade e que seletivamente escolheu as memórias que restam na sua mente.
Coreografando as rotinas desta mulher, num processo com os códigos coming-of-age e coming-to-terms perante uma nova realidade e chegada de um novo estágio da vida, “Familiar Touch” encara a confusão mental da sua protagonista como quotidiana, numa existência que se sente sequestrada, não apenas pela doença, que recusa assumir, mas igualmente por um espaço e realidade que a desorienta, mesmo que tenha como guia uma cuidadora extremosa, Vanessa (Carolyn Michelle), e um médico residente amistoso, Brian (Andy McQueen).
Refletindo a cada vez maior preocupação social sobre o tema, em particular nas últimas décadas, a demência e o Alzheimer têm chegado frequentemente ao cinema, com filmes como “O Filho da Noiva” (2021), “The Leisure Seeker” (2017), “Elizabeth is Missing” (2019), “Dick Johnson is Dead” (2020) e “The Father” (2020) a conquistarem audiências e distinções, movidos por diferentes olhares sobre a questão. E o olhar de Sarah Friedland neste seu “Familiar Touch” é também distinto, não se focando na doença, mas centrando a visão no ponto de vista do “eu” perante a estranheza que o rodeia, e que colide com a perceção dos que estão por fora. “A tua verdade e a nossa verdade são um pouco diferentes”, diz Vanessa a Ruth após um momento de extrema confusão mental da mulher no seu complexo processo de conscientização da sua condição. E nesta viagem, onde as expressões, os gestos e os movimentos de Ruth ganham uma fervorosa atenção da cineasta, o espectador é – também ele – delicadamente arrastado para um destino desconhecido e assustador para aquilo a que chamamos “casa”.




















