Morreu William Friedkin, realizador de “O Exorcista”

(Fotos: Divulgação)

William Friedkin, mais conhecido por “The French Connection” e “The Exorcist”, morreu esta segunda-feira em Los Angeles, aos 87 anos. A morte do cineasta foi confirmada pelo reitor da Chapman University, Stephen Galloway, amigo da esposa de Friedkin, Sherry Lansing.

Nascido em Chicago, a 29 de agosto de 1935, e não 1939 como durante muito tempo se pensou, William era fillho de uma enfermeira e de um vendedor e desportista semi-profissional, que acabaria como seus dias como indigente. O pequeno Friedkin procurava o cinema como escape das suas pobres origens e entre os filmes que destaca dessa época está Citizen Kane, de Orson Welles, que o marcaria profundamente. Sobre ele, disse: “Pareceu-me, refletindo, sintetizar todas as formas de arte: fotografia, iluminação, atuação, música, edição e escrita. E percebi, logo depois, que o cinema poderia realmente transcender as outras artes e sintetizá-las.

Logo após terminar o liceu, Friedkin começou a trabalhar em televisão. O seu primeiro trabalho data de 1962, The People vs. Paul Crump, um trabalho documental feito para televisão que abordava a polémica temática de um condenado cuja confissão foi obtida por intermédio de violência policial. O documentário acabou por ser proibido em televisão, mas reconhecido pelo San Francisco Film Festival com o Golden Gate Award.

Em 1965, muda-se para Hollywood e entre os seus primeiros trabalhos está a colaboração com Hitchcock em The Alfred Hitchcock Hour. A sua primeira longa-metragem, Good Timesdata de 1967, com a dupla Sonny e Cher nos papéis principais. Não teve particular sucesso, seguindo-se a fábula The Night They Raided Minsky’s. Em 1970, William Friedkin arriscou levar ao cinema uma peça de teatro que abordava a homossexualidade, The Boys in the Band, o que criou algum “hype“, sobretudo pela interpretação do mesmo elenco que tinha levado a peça a cena.

Gene Hackman William Friedkin / The French Connection

Mudando completamente o registo começou a trabalhar em The French Connection (Os Incorruptíveis contra a Droga), com um orçamento restringido a dois milhões de dólares. Apostou em dois atores relativamente desconhecidos à época, Gene Hackman e Roy Scheider, e adotou um estilo documental na ficção como forma de cortar custos. Acabou por ser considerado um inovador e uma das perseguições em automóvel foi considerada como uma das melhores alguma vez filmada. O filme acabaria por vencer cincos Óscares em 1971.

Na obra seguinte, William Friedkin voltou a mudar completamente o tom, não só da sua cinematografia, mas do cinema de terror em geral. Tratava-se de The Exorcist (O Exorcista) e o ano era 1973. O filme sobre a possessão demoníaca de uma criança, com imagens particularmente explícitas, tornou-se uma marca do cinema em geral. Diz-se que Friedkin, na senda de tirar o máximo dos atores, chegou a assustá-los com tiros verdadeiros no set de filmagens. O filme bateu a barreira dos 100 milhões de dólares e teve direito a 10 nomeações aos Óscares, um caso raro para um filme de terror.

William Friedkin nas filmagens de The Exorcist

Seguiu com Sorcerer (O Comboio do Medo) em 1977, que transformou-se num colossal “flop”, mas ganhou algum culto décadas mais tarde. Ele mesmo, defendeu o seu filme em diversas ocasiões, explicando que procurou um assunto mais corajoso que estivesse mais de acordo com os filmes com os quais sentia afinidad, ou seja, “filmes de ação e aventura que eram realmente excêntricos, mas muito profundos“. Em 1979, assina The Blink Job, onde reunia um elenco de luxo para a altura – Peter Falk, Warren Oates e Paul Sorvino – mas também este revelou-se um fiasco.

No início da década de 80, lança Cruising, protagonizado pelo jovem Al Pacino. O filme acompanhava um polícia que começava a trabalhar infiltrado na comunidade gay de Nova Iorque de forma a apanhar um serial killer. Cruising provocou protestos generalizados, já que os mais moralistas reclamavam contra a violência e sexualidade explícita, e a comunidade gay de Nova Iorque contra a forma como se via retratada. Por tudo isto, o filme acabou por redundar em mais um falhanço.

Entrou no campo da comédia com Deal of the Century, uma sátira sobre o tráfico de armas com Chevy Chase, Gregory Hines e Sigouney Weaver nos papéis principais, mas mais uma vez a aceitação do filme foi escassa.

Voltando a pisar terrenos mais confortáveis, apresentou em 1985 o filme To Live and Die in LA, baseada num livro escrito por um antigo agente secreto, e protagonizada por William Petersen (o Grisson de “CSI”) e por Willem Dafoe. To Live and Die in LA conquistou a critica, mas não triunfou junto do público. Seguiu-se mais um “flop” com “Rampage” de 1987, obra  sobre a pena de morte e a paranóia, que acabou afundado no meio da falência da produtora.

Nesta altura, possivelmente sem grande margem de manobra junto dos estúdios, o realizador voltou a virar-se para a televisão e abandonou o grande ecrã durante alguns anos. Retornou já na década de 90 com The Guardian, pisando novamente os terrenos do terror, mas o filme foi arrasado.

Friedkin retornou à televisão e aos telefilmes, mas regressaria em 1994 com Blue Chips, que trouxe um Friedkin num registo completamente diferente: o do drama desportivo. No ano seguinte, realizou Jade, um thriller erótico com Linda Fiorentino no papel principal, e depois só voltaria em 2000, com um filme de guerra: Rules of Engagement (Compromisso de Honra). O filme teve críticas variadas, recebendo ainda o título de “filme mais racista alguma vez feito contra os árabes por Hollywood” pelo Comité contra a discriminação Americano-Árabe.

Killer Joe

Três anos depois chega mais um filme de acção, The Hunted (O Batedor), fita com Benicio Del Toro e Tommy Lee Jones como protagonistas, e, em 2006 apresentou Bug, um intenso thriller psicológico sobre um veterano de guerra no limite da paranoia. Só regressaria em 2011, com Killer Joe, uma violenta comédia negra em torno de uma família que pretende matar a matriarca de maneira a receber o dinheiro relativo ao seguro de vida dela. No seu currículo, na realização, encontramos ainda The Devil and Father Amorth, um documentário.

A maioria dos meus filmes, quando os vejo novamente, faria de novo e, em alguns casos, simplesmente deitava fora tudo. Não é assim com Sorcerer. Ainda posso assisti-lo com algum prazer. Ainda sinto prazer nisso“, disse Friedkin há uns anos numa entrevista sobre o conjunto da sua obra.

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