Quando se evoca Hollywood ou a Netflix levianamente, como que centrando apenas neles a arte de criação algorítmica de conteúdos, tende-se a valorizar figuras como a do produtor Jason Blum, como que colocando-o de lado dessa conversa, beatificado-o como santo protetor da independência criativa norte-americana, longe de qualquer calculismo empresarial. A verdade é que, virando frangos atrás de frangos, que é como quem diz, produzindo filmes de horror em doses industriais para o mercado, o engodo do produtor de “baixo orçamento” com grandes ideias e formação estética elevadíssima, perde força, servindo principalmente como marketing positivo alternativo, onde a luta do pobre David (Blumm) contra o Golias (Hollywood, Netflix e outros streamers) anima as discussões das hostes dedicadas ao cinema de horror.
Esta pequena introdução serve para dizer que apesar de “Imaginary” (Amigo Imaginário) ter a realização de Jeff Wadlow, tal como “Night Swim” tinha de Bryce McGuire e “Five Nights at Freddy’s” de Emma Tammi, isso realmente pouco importa, pois estes filmes são, acima de tudo, do produtor, ou seja, “filmes Blum”. E este produtor, que até já foi validado como “autor” por certames como Locarno, tem as suas marcas, tendências e naturalmente clichés, os quais se espalham por todo o cinema de horror que vem com o seu selo. Respeitando com dignidade que não se deve abalroar os alicerces dos códigos do horror, a não ser que se construam novamente após a desconstrução efetuada (como Jordan Peele tão bem o faz), Blum tem apresentado, fora raras exceções (onde se inclui a produção de filmes de M.Night Shyamalan), o modelo de baixo orçamento com gente desconhecida no elenco para tentar replicar o sucesso que lhe deu carburante para ser o produtor que é hoje, isto é, “Paranormal Activity”.
Conseguiu bons sucessos com os filmes de Jordan Peele (“Get Out”; “Us”), com a franquia “Insidious” (da dupla James Wan e Leigh Whannell) e com o surpreendente “The Purge”, mas, de resto, e colocando “BlacKKlansman” de Spike Lee noutro patamar e “The Invisible Man” e “Upgrade” nas contas de Leigh Whannell, na relação sucesso de mercado vs qualidade dos projetos, em mais de 150 produções não consta assim tanta coisa relevante. Assim o foi, por exemplo, com o esquecível “Ilha da Fantasia”, também com a assinatura de Wadlow, e assim o é com este “Imaginary”, um primo de “Five Nights at Freddy’s”, que veio atrelado no mesmo ano com resultados bem melhores, não fossem os elementos palpáveis do passado a aterrorizar e a vingarem-se no presente.
Filmes de consumo imediato (fast food cinematográfico) que distorcem conceitos familiares que provocavam algum conforto e boas memórias, afinal a Ilha da Fantasia que conhecemos na nossa juventude era vibrante e cumpria os sonhos inalcançáveis do homem comum, e os amigos imaginários que quase todos tínhamos na infância eram companheiros imprescindíveis, “Fantasy Island” e “Imaginary” são distorções psicologicamente estudadas ao pormenor para introduzir e associar o fator de medo às boas memórias, transformando sonhos e lembranças em pesadelos e traumas.
No caso específico de “Imaginary”, é o recalcamento de memórias traumáticas e o poder da imaginação que move a ideia chave que as memórias de infância moldam a nossa vida adulta. E tudo isso é apresentado através da história de Jessica (DeWanda Wise), que voltando à casa onde passou boa parte da sua meninês, agora acompanhada pelo parceiro e duas enteadas, vai ter de lidar com a vingança do seu amigo (imaginário) de infância, Chauncey, que terrenamente tem a forma fofinha de um urso de peluche. Ora, o alvo é Jessica, mas será a pequena Alice (Pyper Braun) que nesta sua nova casa vai começar a interagir com Chauncey, o qual se apagou (recalcou) e foi fechado a sete chaves numa parte inatingível da mente de Jessica. Só quando a pequena Alice desaparece, Jessica parece despertar para o seu passado, decidindo resolver o que ficou por resolver, encerrando definitivamente o seu trauma.

O que se segue é uma obra de tom escapista em que o simbólico dentro dos códigos do cinema de horror é tudo. Coisas que por natureza trazem boas recordações – um urso de peluche, um carrossel de corda, desenhos infantis, um autocolante sorridente e muito mais – são desviados da rota do prazer e nostalgia e trazidos para o campo do medo e assombração, de forma a mexer com o que o espectador vê no ecrã, mas também com o que viveu.
Isto tudo não seria mau de todo, caso o filme não caísse nos lugares comuns da obviedade e facilitismos vários, tudo a bem do entretenimento que se encerra em si mesmo. É que por aqui, naturalmente existe uma idiota adolescente (Taegen Burns no papel de Taylor, a irmã mais velha de Alice) sempre pronta a fazer disparates para legitimar a entrada do mal; uma música de embalar que se transforma num momento de aviso do pavor que se segue; uma cave com uma fornalha daquelas à Freddy Krueger que serve de porta para um “além” quase ”Poltergeist”; uma vizinha idosa mística para adensar a história com camadas do passado no presente; uma terapeuta que vem nos mandar pesquisar por conceitos na Wikipedia (paracosmos, neste caso); e a catadupa habitual de jumpscares por elevação sonora. E, como não podia faltar, nas relações humanas existem dramas pessoais corriqueiros que vão afastar as três mulheres da mesma luta contra Chauncey, pelo menos até ao final. Vivendo principalmente da atmosfera criada pela direção artística e interpretações, tudo o resto de “Imaginary” está em piloto automático, com destaque para a montagem, direção de fotografia, som e composição musical, todos eles no modo algorítmico do modelo “Blum”.
Jeff Wadlow referiu “Poltergeist” como a grande influência para “Imaginary” e, vendo o filme, percebe-se o toque dessas marcas, mas tudo está muito longe de ter a dimensão assustadora e marcante do filme de Tobe Hooper (e Spielberg). No fundo, “Imaginary” é apenas mais um filme de terror a ir para as salas dos shoppings para cumprir quotas empresariais e, acima de tudo, vender pipocas. Na nossa mente, não fica nada recalcado, é apenas ignorado e esquecido.




















