Como afirmei no meu texto de “Asteroid City”, o nome de Wes Anderson já se transformou num adjetivo para definir obras de elevado requinte visual em múltiplas vertentes, da arquitetura ao design, da fotografia ao guarda-roupa. Essa proeza, incontestável, aliada a elencos constituídos por grandes nomes do cinema mundial, tem sido a espinha dorsal de uma cinematografia onde estranheza e ironia convivem com personagens burlescas, muitas das quais têm apenas uma aparição fortuita. Mas a grande novidade neste “The Phoenician Scheme” (O Esquema Fenício), ou antes, um retorno aos melhores dias de Anderson, é que a acompanhar isto tudo temos desta vez uma história mais coerente no seu absurdo e que funciona melhor no seu humor. Sim, o festival espampanante visual do norte-americano permanece imaculado, mas o cineasta arrisca um pouco mais, triunfando com um humor absurdo que vai da palavra ao gesto num timing correto e numa coreografia exemplar das interpretações nas suas movimentações e intromissões na narrativa.
Em “The Phoenician Scheme”, Benicio del Toro, no seu melhor, interpreta o plutocrata Zsa-zsa Korda, um dos homens mais ricos e poderosos do mundo, ao ponto de vários países se sentirem ameaçados pelos seus negócios e intromissões. Com tantas ambições de conquista, como inimigos, foram já várias as vezes que tentaram matar este homem. A primeira cena do filme começa com isso mesmo: Del Toro num avião, há uma explosão e o corpo de um tripulante é rasgado e levado para a estratosfera. Na urgência de sobrevivência, Del Toro crê que é mesmo desta que os seus inimigos o derrubaram e a morte é certa. Uma imagem dele no “céu” com personagens bíblicas e também a sua avó, filmada um preto e branco que destoa da vida terrena, indicia que o magnata foi “desta para melhor”, mas é apenas uma ameaça, pois um minuto e meio depois ele está prostrado num campo rural e percebe que ainda não foi desta que morreu. Este evento fá-lo convocar a filha, uma freira, para iniciá-la nos seus negócios e deixar um herdeiro. Nesses negócios, inclui-se o esquema fenício do título, no qual ele procura dominar a economia de uma nação fictícia do Médio Oriente, através de uma série de empreendimentos, recorrendo à exploração de mão de obra escrava.
Sátira completa que consegue enfiar o barrete em qualquer plutocrata do nosso mundo, “The Phoenician Scheme” vai-se movimentar, principalmente, no ambiente familiar, com a desconfiada filha de Del Toro, Liesl (Mia Threapleton, filha de Kate Winslet) a liderar as operações e risos, quer na relação com o pai, quer com o secretário dele (Michael Cera), que entretanto se enamora por ela.
Claro está que ver atores como William Dafoe, Charlotte Gainsbourg ou Bill Murray em papéis tão diminutos, reduzidos a cameos, soa quase a sacrilégio, mas a dinâmica entre Del Toro, Threapleton e Cera é suficiente para sustentar o filme, pelo menos até surgir Benedict Cumberbatch, em modo Rasputin, como o grande rival de Zsa-zsa Korda. Se pensarmos bem, “The Phoenician Scheme” é só mais uma peça do puzzle que é a cinematografia de Wes Anderson, mas tudo (ou quase tudo) funciona melhor que nas últimas incursões do cineasta: “Asteroid City”, “The Wonderful Story of Henry Sugar and Three More” e “French Dispatch”.



















