Carmelo Bene (1937-2002) está em Bravo Bene! como promessa e fantasma, mas acima de tudo serve de espelho para uma ferida inultrapassável que Franco Maresco encontra em si quando tenta fazer um filme sobre a figura da vanguarda italiana. Ator, encenador e cineasta que fez da recusa da representação convencional uma forma de arte, Bene insurgia-se contra a psicologia e o naturalismo das personagens, olhando para o mundo cultural como quem olha para a decadência e ruína. Sobre o cinema, ele mesmo diria: “O Cinema está morte. Fracassou. É um substituto de si próprio.”
Incapaz de fazer o filme que desejava, pois este mundo não é certamente para Bene nem para Maresco, o cineasta de Palermo acaba por encontrar outro filme, o de choque entre uma figura irredutível e um presente que já não o consegue acolher. Bene surge, assim, via o próprio Maresco, como uma máquina de desfiguração cinematográfica, onde se quisermos até podemos dizer que existe uma espécie de biopic nele, mas feita sobre Maresco, que se sente o Carmelo Bene do século XXI.
Bravo Bene começa de forma hilariante com o desespero de uma equipa que não sabe onde está o realizador. A descrição de um senhorio de como Maresco deixou a casa que lhe alugou dá o mote para um filme que podemos descrever como “À Procura de Maresco”, principalmente através da obstinação do seu amigo Umberto Cantone, que tenta reconstruir o rasto do cineasta desaparecido depois do colapso do projeto sobre Bene, e que iria se focar na década de 1970.




Rapidamente essa procura deixa de ser apenas o motor da narrativa para se tornar um diagnóstico, particularmente à medida que surgem notícias na TV, conferências de imprensa alucinadas, além de depoimentos de produtores, colaboradores, médicos e outras figuras laterais , começando aqui o retrato do cineasta que, ao tentar filmar Bene, acaba engolido pela incapacidade de aceitar as condições que a atualidade lhe oferece.
Quem não conhece Franco Maresco, que em 2019 venceu o Prémio Especial do Júri no Festival de Veneza com La mafia non è più quella di una volta, encontra aqui uma porta de entrada enviesada, podendo entender o que ele construiu ao longo dos tempos, embora sempre com os seus escombros a pairarem.
Começando na televisão, temos uma mirada sob a pedrada no charco na era pré-Berlusconli que representou Cinico TV, uma colaboração de Maresco com Daniele Ciprì. Olhamos depois para a escandaleira que foram Lo zio di Brooklyn (1995) e principalmente Totò que Viveu duas Vezes (Totò che visse due volte), uma longa-metragem de 1998 escrita e realizada pela dupla siciliana, que até hoje é considerada uma das obras mais controversas, radicais e niilistas da época, ao ponto de ter sido censurada. Claro está que esta apresentação do seu percurso, ou digamos, alicerces entre a nostalgia e o niilismo, surge longe de um currículo ordenado e alongado, mas mais como um ruído expositivo para compreender que Maresco é alguém para quem filmar nunca é apenas filmar, mas antes medir forças com a realidade que despreza, com a indústria que o limita e, acima de tudo, consigo próprio, talvez o seu obstáculo mais persistente e interessante.
Obstáculo esse que torna-se evidente quando revemos fragmentos do material que Maresco chegou a filmar para o projeto sobre Bene e depois para a tentativa de salvar todo o projeto, naquilo que o próprio Maresco apelida como “traição”. É aqui que entra em cena Francesco Puma, um crítico tornado em figura televisiva, faminto por protagonismo e disposto a integrar a produção. Descrito por Maresco como uma das figuras mais imbecis que já conheceu e com quem trabalhou no passado, a sua integração no projeto – da estação de TV que onde Maresco iniciou a carreira – traz ao filme uma nova dimensão cómica, onde a mediocridade que Maresco sempre combateu entra pelo próprio projeto a dentro, logo na figura de autopromoção que agora está nela.
De certa forma como em Burden of Dreams, que acompanha a obsessão épica de Werner Herzog até à concretização quase impossível de Fitzcarraldo, e Lost in La Mancha, que regista o colapso do Don Quixote de Terry Gilliam, estamos perante um objeto sobre um filme impossível, e uma obra que nasce das ruínas de outra. Porém, no gesto provocatório de auto-encenação, Maresco aproxima-se de nomes como o de João César Monteiro, em Branca de Neve, e de uma certa tradição de sabotagem que passou também por Guy Debord e até Godard: aquela que transforma a frustração do espectador, a interrupção do projeto e o esfrangalhar da promessa inicial em material estético e afirmação autoral.
Assim, o filme que chega até nós já não documenta apenas um fracasso, mas organiza-se a partir dele, fazendo da falha o método e de uma impossibilidade um manifesto de ataque ao cinema domesticado e à mediocridade da cena cultural. Bravo Bene! não é pois o retrato de Carmelo Bene que prometia ser, mas o de uma arte que, principalmente agora, não sabe lidar com os seus sabotadores.





















