Tribeca, 25 anos de louvor ao cinema indie

(Fotos: Divulgação)

Encarado como um canteiro de descobertas da cena indie dos EUA, aberto também a filmes da Ásia, de África, da Europa, da Oceânia e das demais Américas, o Tribeca Film Festival tornou-se um dos mais relevantes pontos de encontro do cinema autoral — e de baixo orçamento — feito no século XXI. Criado em 2001 por Robert De Niro, em parceria com Jane Rosenthal e Craig Hatkoff, como resposta aos atentados de 11 de Setembro contra o World Trade Center, o evento chega agora à sua 25.ª edição com a mesma vocação de descoberta que revelou obras marcantes como Let the Right One In (Låt den rätte komma in, 2008), de Tomas Alfredson. Entre 3 e 14 de junho, a cidade volta a transformar-se num vasto ecrã de estreias, sob a supervisão artística de Cara Cusumano. A abertura faz-se pelas vias documentais… e musicais… com Earth, Wind & Fire: To Be Celestial / That’s the Weight of the World, realizado por Questlove (na foto). No fecho da programação, a toada será a mesma: Alicia Keys: Girl From Hell’s Kitchen, realizado por One9, encerra os trabalhos.

Entre os títulos mais aguardados encontra-se The Last Day, drama protagonizado por Wagner Moura e Alicia Vikander. O filme acompanha o cruzamento das vidas de duas mulheres em Nova Iorque, numa releitura contemporânea do universo literário de Virginia Woolf, apostando numa narrativa intimista sobre memória, maternidade e identidade. A presença de Moura reforça o prestígio internacional da produção, uma das mais comentadas da seleção norte-americana.

Outro destaque é Against the Flow, do realizador chinês Tao Zhang, coprodução entre França, Luxemburgo, Portugal e Suécia. O filme acompanha Dayao e a esposa grávida, Tiantian, divididos entre a vida urbana e o regresso ao campo. Quando um acidente de trabalho altera drasticamente o seu futuro, o casal vê-se confrontado com decisões que colocarão à prova a própria ideia de família.

Do Canadá chega Turn It Up!, de Sam Scott. Trata-se de uma irreverente combinação de horror sobrenatural e comédia musical. A narrativa segue uma banda independente que acredita ter encontrado finalmente o riff capaz de a tornar famosa, sem suspeitar de que a melodia abre um portal para uma dimensão aterradora.

O Japão marca presença com a longa-metragem de animação The Keeper of the Camphor Tree. O seu argumento acompanha a transformação pessoal de um jovem marginalizado que aceita desempenhar uma misteriosa função ligada a uma antiga árvore sagrada, numa história de crescimento, redenção e espiritualidade.

Já a sátira tecnológica Deepfake, de Matt Eames, coprodução entre os Estados Unidos e Itália, explora os dilemas contemporâneos da construção da identidade digital. Após uma separação amorosa, uma mulher contrata uma equipa de consultores da Geração Z para reinventar completamente a sua imagem, mergulhando numa espiral de manipulação algorítmica e cultura das redes sociais.

Muito se espera ainda da coprodução hispano-americana Summer War, de Alicia Scherson. Situado no Chile de 1989, durante o declínio da ditadura de Pinochet, o filme acompanha Udo Berger, campeão de jogos de guerra de mesa, cujas férias à beira-mar ganham contornos inquietantes após um desaparecimento misterioso. A literatura de Roberto Bolaño atravessa toda a narrativa.

Outra aposta forte é o haitiano The Tropic Sun and His Eyes, de Elisée Junior St Preux. A obra segue Ruben, que regressa ao Haiti para reencontrar o pai distante. A viagem ganha novos significados quando estabelece uma improvável ligação com um rapaz local que insiste em acompanhá-lo.

O Brasil mantém uma relação privilegiada com Tribeca, que ao longo da sua história acolheu obras como Estranho Caminho, de Guto Parente; Festa de Margarette, de Renato Falcão; Santiago, de João Moreira Salles; Elvis & Madona, de Marcelo Laffitte; e Califórnia, de Marina Person. Este ano, a presença brasileira faz-se sobretudo através de Funk, de Aly Muritiba, selecionado para a Competição Internacional. O filme acompanha Sabrina, uma jovem da periferia carioca determinada a conquistar espaço no universo dos bailes funk, enfrentando desafios familiares, sociais e profissionais enquanto procura transformar talento em ascensão artística. A produção propõe uma leitura contemporânea da juventude urbana brasileira e do funk enquanto instrumento de afirmação cultural.

Paralelamente às projeções, o festival mantém a sua tradicional agenda de conversas públicas, as Tribeca Talks, reunindo figuras de diferentes áreas da cultura e do entretenimento, entre elas Madonna, Bruce Springsteen e Paul Rudd, reafirmando a vocação interdisciplinar que distingue o evento desde a sua fundação.

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