9 Temples to Heaven: “Ir aos templos deveria ser algo religioso, espiritual, mas depois torna-se turismo, negócio” — Sompot Chidgasornpongse

(Fotos: Divulgação)

Assistente de realização de Apichatpong Weerasethakul há mais de 20 anos, Sompot Chidgasornpongse, formado em arquitetura e em cinema/vídeo, tem construído uma obra atenta às formas de observar o quotidiano tailandês com curiosidade, rigor e liberdade formal.

Realizador de Railway Sleepers, documentário apresentado em Busan e no Forum da Berlinale, apresenta agora em Cannes, na Quinzena dos Realizadores, 9 Temples to Heaven, um projeto nascido de uma experiência profundamente pessoal: as viagens a templos budistas que fazia com a família. Entre espiritualidade, superstição e turismo, Chidgasornpongse falou ao C7nema sobre budismo tailandês, a influência de Apichatpong na sua vida e a forma como a arquitetura continua a moldar o seu olhar cinematográfico

.Ah, e contou-nos ainda um detalhe delicioso: é fã da série The White Lotus, que passou pela Tailândia e agora filma a quarta temporada em Cannes. A abertura da série apresentava um mural budista, uma ideia em que também tinha pensado para o seu filme, mas que acabou por abandonar para não ser acusado de imitação. 

9 Temples to Heaven,

O filme passou por um longo processo de financiamento, com passagem por Locarno e Turim. Quanto tempo demorou até conseguir fazer este 9 Temples to Heaven?

A ideia surgiu há nove ou dez anos. No meu documentário anterior, Railway Sleepers, já mencionava uma viagem noturna a templos na parte final do filme. Já tinha a ideia de fazer este filme.

Foram nove anos a passar por muitos laboratórios de desenvolvimento e produção, para garantir o financiamento do projeto, mas também para eu compreender melhor o funcionamento das coproduções. Passar por esses laboratórios ensinou-me, e ensinou ao meu produtor, o que significa coproduzir, aquilo com que devemos ter cuidado e como atravessar esse processo.

E como surgiu a ideia para o filme?

Veio da minha experiência pessoal. Cresci numa família religiosa. Por isso, ir ao templo sempre foi algo muito comum para mim. Até hoje a minha família continua a ir ao templo quase como forma de lazer.

Não vamos à montanha, nem à praia, nem a coisas desse género. Vamos ao templo. É quase uma atividade recreativa para nós. Claro que também ajuda espiritualmente, sobretudo os meus pais e os meus avós. Cresci com a minha avó, por isso é algo muito pessoal.

Fiz muitas vezes este tipo de viagem noturna a templos com a minha família. Sempre achei que havia ali algo fascinante, muito cinematográfico. Escrevi o primeiro rascunho do argumento quase a imitar aquilo que me aconteceu numa viagem familiar. Claro que depois se transformou noutra coisa.

Essa viagem noturna a templos é uma tradição habitual na Tailândia?

Sim, é bastante comum. Talvez nem todas as famílias o façam, mas, se mencionarmos uma viagem noturna a templos a um tailandês, ele percebe imediatamente do que estamos a falar.

Ultimamente, até tem sido promovida pelas autoridades de turismo. O número nove é um número de sorte na Tailândia, por isso são nove templos. O nove também está ligado ao nosso rei anterior, Rama IX, que esteve no trono durante 70 anos. Antes da morte da rainha de Inglaterra, ele era o monarca há mais tempo no trono em todo o mundo.

Depois morreu e agora temos o rei número dez. Mas, por ter estado no trono durante 70 anos, o número nove tornou-se quase sagrado para os tailandeses.

O que é interessante na sociedade tailandesa, e também no cinema tailandês, é a forma como equi

libra as crenças em fantasmas, a espiritualidade e os rituais na vida quotidiana. Como trabalhou esse aspeto no filme?

Acho que isso vem naturalmente, porque somos um país muito budista. Para onde quer que se vá, há templos. Para onde quer que se vá, há santuários. Se passamos por um santuário, tenho de fazer um gesto, porque a minha mãe me obrigava a fazê-lo.

Viver com espíritos, fantasmas e esse tipo de coisas é algo muito comum para nós.

E o budismo na Tailândia não é puro budismo. É uma combinação de bramanismo, hinduísmo, às vezes até cristianismo, animismo. Tudo se mistura.

Os monges no filme estavam a representar ou estavam ali como num documentário?

Os  monges não podem representar em filmes. É contra as regras.

Então quem são eles?

São atores não profissionais. Pessoas normais, como nós, que aceitaram rapar a cabeça.

E podiam vestir a roupa de monges?

Sim, porque monges verdadeiros não podem participar em entretenimento. Não é suposto. Por isso tivemos de escolher pessoas comuns para interpretar monges. Monges reais não podem participar numa rodagem.

Havia atores profissionais no filme?

Não. São todos não profissionais.

Todos? Mesmo a família? A mãe? A avó?

Sim, todos. A avó nunca tinha representado. Alguns membros da família já tinham feito curtas-metragens, videoclipes ou pequenos papéis em séries, mas nunca tinham participado numa longa-metragem. 

Há um momento em que em vez de seguir viagem a avó prefere ficar em casa. Porquê essa decisão?

Acho que está cansada. Acho que, de certa forma, já não se importa.A razão pela qual a família a quer levar é porque quer que ela viva mais tempo. Mas acho que, para ela — e talvez também para a minha avó —, no fim já não queremos saber. Estamos cansados. A demência também tem algo a dizer.

No final do filme, quando diz que quer ir ao templo, talvez já nem tenha a certeza daquilo que quer.

Trabalhou muito com Apichatpong Weerasethakul, que é um dos produtores. Até que ponto ele o influenciou? Não tanto no estilo, mas na forma como observa o mundo e a vida.

Muito, acho eu, porque trabalho com ele há 23 anos, como assistente de realização.

Influenciou-me de muitas maneiras, algumas das quais nem consigo identificar. Ao trabalhar com ele, partilhamos ideias a toda a hora. No fim, já nem sei qual é a minha ideia e qual é a dele.

Neste filme em particular, ele deu contributos durante a fase do argumento e depois deixou-me estar. Tem muita consciência de que não quer impor-se. Insistia sempre: “É o teu filme, quero que faças o filme que queres fazer. Não é o meu filme.”

Ele insiste muito nisso. Acho que recebeu essa liberdade do produtor dele, e quer dar-me a mesma liberdade.

No Ocidente temos muitas vezes uma visão romantizada do budismo. Mas no filme há também turismo, capitalismo e corrupção. Como tentou captar essa complexidade sem forçar demasiado?

Vejo essa complexidade no budismo tailandês: há superstição, turismo, política, tudo muito embutido. Queria captar isso, mas sem sentir que estava a forçar esses elementos.

O filme passa-se num único dia e não se pode enfiar toda a agenda num dia. Tudo tem de surgir de forma subtil.

Tentei encontrar situações vindas também da minha própria experiência, de encontros com monges, e fui reunindo essas experiências para perceber que situações poderiam transmitir certas coisas de uma forma subtil e suave.

Tanto este filme como o Railway Sleepers podem funcionar como uma espécie de cartão de visita da Tailândia para quem quer visitar o país, viajar por ele e conhecer a religião. Como vê isso?

Espero que ajude, mas não de uma forma direta. Como disse, Railway Sleepers podia quase ser visto como um filme de propaganda turística: como é fantástico viajar de comboio pela Tailândia, ou como é maravilhoso ir a templos.

Tenho muita consciência disso. Tentei não filmar os comboios ou os templos de uma forma demasiado turística. Trabalhei muito com o meu diretor de fotografia para evitar esse tipo de imagem, mas sem negar a beleza dos templos. Não há como negar: os templos são lugares muito bonitos.

Espero que o filme desperte curiosidade no público e vontade de visitar, mas não de forma direta. Talvez vejam outra beleza, mais ligada à vida quotidiana, e sintam vontade de conhecer.

Já participou pessoalmente numa viagem aos nove templos?

Sim, muitas vezes. Com a minha família e também com amigos.

As autoridades de turismo promovem muito isso. Se fores a uma estação de transportes públicos, podes apanhar um autocarro às quatro ou cinco da manhã. Há muitos autocarros à espera. Podes escolher que autocarro vai fazer nove templos numa província.

É um negócio.

Exatamente. Mas são sempre nove templos, porque o nove é um número de sorte.

O que isso lhe provoca?

Levanta muitas perguntas. Ir aos templos deveria ser algo religioso, espiritual, mas depois torna-se turismo, negócio.

Questionamos os templos. Porque é assim? Os templos também competem uns com os outros para atrair mais visitantes. E ficam cada vez mais ricos por causa das doações, sem pagar impostos.

Vamos ao templo, rezamos, esperamos que isso nos ajude espiritualmente, mas ao mesmo tempo percebemos que talvez não seja esta a forma certa.

E em si, pessoalmente, o que mudou?

Muita coisa. Cresci numa família religiosa, com a casa cheia de livros budistas. Cresci a praticar rituais. Mas, ao crescer, comecei a questionar os rituais e as instituições.

Comecei a aproximar-me mais do zen-budismo, de algo mais mínimo, mais simples. Continuo interessado nos ensinamentos, mas não na instituição à volta. Questiono muito essas coisas.

O filme trabalha muito a incerteza, o medo da morte, mas também a ritualidade como algo que aquece as pessoas que têm medo. Fazer filmes é um ritual para si?

De certa forma, sim. E fazer este filme obrigou-me mesmo a explorar as minhas próprias crenças nos rituais e na religião.

Falaste da incerteza, e isso é algo que as personagens sentem e que eu também sinto como cineasta. Na vida, quando enfrentamos a incerteza, mesmo que não acreditemos muito na religião, quando não temos escolha e não temos esperança noutras coisas, automaticamente nos voltamos para algo superior, para um poder maior do que nós.

Quando filmámos este filme, estávamos na estação das chuvas e chovia muito. Esperávamos e não sabíamos o que fazer. Acabámos a rezar. O meu diretor de fotografia é francês e dizia: “Vamos rezar juntos, vamos pôr incenso.” Ele é cristão, talvez não praticante, mas curvámo-nos perante os deuses para a chuva parar e conseguirmos filmar.

Originalmente, eu queria questionar essa crença. Mas, ao fazer o filme, percebi que, quando se enfrenta incerteza e dúvida, rituais assim ajudam-nos de alguma forma. Talvez não diretamente, mas aquecem o coração, curam-nos de certa maneira. Talvez seja isso o ritual. Talvez não prometa resultados, mas acalma-nos. E talvez isso já seja suficiente.

O que significa para si ter estudado arquitetura? Como isso o ajuda diretamente no cinema?

Acho que ajuda muito. Quando estudamos arquitetura, somos treinados para compreender espaços, estruturas, luz, enquadramento e composição.

A arquitetura treinou a minha mente para ver enquadramentos, construções, luz e o movimento das pessoas dentro do plano. Acho que isso me ajuda realmente muito.

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