Podemos dizer que a banda sonora de O Grande Gatsby“marca um retorno do universo de Baz Luhrmann ao universo da música pop, um casamento que cimentou grande parte da sua carreira – que é como quem diz, os seus dois maiores sucessos de bilheteira dos quatro filmes que realizou (“Romeo + Juliet” e “Moulin Rouge!”).
Mas enquanto que num filme como “Moulin Rouge!” a música era motor fundamental da história, em “Gatsby“, todo o anacronismo parece mais acessório, o que não deixa de espelhar uma bela ironia, dado o tema central da história (tal como a pompa e os milhões gastos no próprio filme, aliás…). Até a ideia de transformar a “idade do jazz” em nova idade “hip-hop/R&B” acaba por parecer… demasiado redutora e segura, comparada com os golpes de génio do passado (de novo, impossível não fazer o elo de comparação com “Moulin Rouge!”….).
Se quase metade da banda sonora é composta por músicas que esperaríamos da respetiva fruta da época (nomeadamente as faixas de Sia, Lana Del Rey, Florence and the Machine, The xx, e Gotye), elas não desapontam de todo – o melhor elogio que se pode fazer é que, à excepção de Gotye, cuja música não foi feita de propósito para o filme, qualquer uma delas caberá muito bem num “best of” futuro do artista em questão.
Dentro das maiores surpresas conta-se uma “cover” nada convencional de “Back to Black” de Amy Winehouse, onde Beyoncé arrisca (e bem!) ser menos diva que o habitual, e partilhar pouco tempo de antena, deixando Andre 3000 fazer o trabalho mais sujo. Outra cover – “Crazy In Love” – da mesma Beyoncé, surge bem mais inconsequente, num arranjo nada inventivo e sub-Nouvelle Vague do normalmente criativo Bryan Ferry, com Emilie Sandé a servir de voz (Ferry e a sua orquestra conseguem no entanto redimir-se numa nova versão de “Love is the Drug” dos Roxy Music). Falar mal dos “Black Eyed Peas” will.i.am e Fergie já será caso de bater no ceguinho, mas o produtor executivo Jay-Z consegue evitar o pior, e acompanhar estes dois “vultos” de canções bem mais encorpadas do que geralmente merecem… safando-se até melhor que um conceituado Jack White, numa versão demasiado pomposa de uma música que já de si tem pomposidade que baste (“Love is Blindness” dos U2).
Ainda assim, e no meio de tanta mistura, pode-se dizer que o saldo é positivo, e pelo menos a pompa do filme encontra na música, se não um motor vital para movimentar a ação, pelo menos um companheiro fiel à visão de Luhrmann.

