“Walter fez de mim um multi-milionário”
Bryan está na reta final da derradeira série Breaking Bad. Ao C7nema, e por ocasião da estreia de «Argo», partilhou a sensação única de participar no projeto e desvendou também o projeto que desenvolve como realizador e argumentista.
Já terminou a rodagem da série Breaking Bad? Será esta a última série?
Ainda temos oito episódios para filmar, episódios esses que serão exibidos durante o Verão nos Estados Unidos. Depois sim, será o final de tudo.
Que tipo de sensação o domina nesta altura?
Sinto-me bem, porque ainda vou voltar. Por isso não é ainda a hora de despedidas. Nesse momento será a altura abraços e lágrimas. Mas nós atores já estamos habituados. Historicamente, somos vagabundos e vivemos na eminência de terminar projetos. É como vermos colegas de trabalho reformarem-se ou seguirem caminhos diferentes. É um pouco estranho.
Não receia o que virá depois?
Não. Nunca sofri esse receio. Até porque para se ter sucesso temos de desenvolver essa noção de destino. Por outro lado, o dinheiro não me motiva. Por exemplo, não sei quanto ganhei em Argo. Apenas sei que queria fazer o filme. Apenas disse aos meus agentes: “quero participar no projeto; vejam se não falham”. Eles têm o incentivo financeiro para fazer isso acontecer. Para mim, a soma final não significa nada. Aliás, não me interessa nada fazer uma decisão criativa motivada por um elemento económico.
No entanto, foi essa personagem que lhe deu a segurança económica…
Sim, o Walter (White, a sua personagem na série) fez de mim um multi-milionário. Não precisava de trabalhar mais na minha vida. E tenho imensa sorte por isso ter acontecido. Veja bem, não estou a dizer que o dinheiro não é importante. Claro que é. É ótimo! Mas eu e o meu agente somos amigos desde criança e ele toma conta da minha atividade financeira, enquanto que eu me dedico a fazer aquilo que gosto.
Mesmo sem revelar o final, está satisfeito com esse desfecho? Quando começou sabia que ia ser este o final?
Desde o início que Vince Gilligan (autor da série) queria transformar um homem bom numa pessoa má. E isso levaria muitas horas a contar. Como filme, Breaking Bad seria péssimo, pois teria de truncar a história e comprimir muito tempo. Por isso, eu apenas sabia que ia de bom para mau. Mas não todos os detalhes. Tal como não sei como será o final.
Nunca se interrogou?
Nunca perguntei, mas também nunca me iriam dizer…
O que considera que a personagem de Walter lhe deu enquanto ator?
Bom, foi o maior papel da minha vida e minha carreira. Sei que nunca terei um papel como este. Basta ver o espectro da personagem. Do doce e dedicado pai e marido, para um homem deprimido que toma uma decisão arrojada e que passa a viver acossado. Até se sentir com um orgulho arrebatador e um ego inflamado. É como um enorme parque de diversões para um ator se testar. Apenas temos de ter cuidado como o interpretamos.
Bryan Cranston em «Argo»
Tal como o Ben Affleck se tornou realizador, o Bryan também realizou alguns episódios da série. Mas guarda algum outro projeto de realização na manga?
Quero escrever. Estou a desenvolver um guião que começa a ganhar força. Poderá ser algo que venha a realizar o ano que vem. Após o final de Breaking Bad. Acabamos a rodagem em Março. Entretanto começo agora a pré produção do filme.
Que história é esta?
É um projeto que adaptei de uma novela. É um policial, mas com uma forte sensibilidade familiar. Sobre um agente do FBI famoso que abandona a profissão e leva a sua mulher e filho para a sua terra natal para recuperar os valores familiares. Mas esses valores são apenas o lado interno e não o externo. Até que toma o caminho errado; entretanto acontece um homicídio, deixa-se tentar por uma mulher… Por fim, pai e filho trocam de lugares e chocam.
E que estado está o seu projeto Getting a Job, com a Anna Kendrick?
Getting a Job é um filme pequeno, uma comédia, sobre os paralelos do desemprego, que acho que é algo com que os Estados Unidos e a Europa compreendem bem. A minha personagem e a do meu filho, que acaba de sair da faculdade, encontram-se ambos desempregados ao mesmo tempo. É algo ainda mais trágico. Para ele é devastador, mas para mim, com 50 anos, é um pouco mais assustador. No fundo, aprendemos a lidar com isso de uma forma cómica. Pelo menos é essa a mensagem.

