Sex / Life: uma história sobre um grande e competente pénis

E este enaltecimento à parte integrante do sistema genital masculino do coprotagonista será a única coisa positiva que vão ler - no c7nema - acerca deste projeto Netflix

(Fotos: Divulgação)

Vivemos tempos em que movimentos que se iniciaram como causas nobres de defesa passaram a ser sinónimo de extremismo. São muitos os exemplos em que o feminismo – que demorou séculos a estruturar-se e a fazer-se ouvir – se perde na demanda pela superioridade e não pela igualdade.

O universo das “50 Sombras de Grey” abriu portas a um estilo de literatura e de criações / adaptações para filmes e televisão sobre o místico Graal que são os prazeres femininos. Mas este nicho de mercado é muito peculiar, pois em 90% das vezes, tem como protagonistas mulheres que, impulsionadas por homens desenhados pelos mestres renascentistas, são portadoras de personalidades muito duvidosas. Mulheres que exploram a sua sexualidade sem medos ou pudores, mesmo que isso as represente, dissimuladamente, como objetos sexuais ou que, elas próprias usem os outros como objetos descartáveis.

Sex / Life” é mais uma entrada direta neste capítulo erótico-fofinho mergulhado em alicerces distorcidos que resvalam sobressaltados entre os termos feminismo e machismo e que ficam muito perdidos entre as suas ténues fronteiras.

O foco da série é Billie (interpretada por Sarah Shahi), uma mulher instruída, bem casada mas sexualmente mal resolvida. Billie vive numa idílica mansão em Connecticut é dona de casa e mãe de dois filhos – Billie é casada com Cooper (Mike Vogel), um bem-sucedido investidor de capital. A vida do casal parece perfeita mas a inexistência de uma vida sexual ativa, afasta-os. Depois de ser mãe, Cooper a pensar que está a dar o espaço e tempo que Billie precisa para recuperar, não a procura nem a satisfaz sexualmente e isso leva a mulher a pensar no saudoso ex-namorado, não propriamente em termos afetivos mas, segundo vamos percebendo, puramente por instintos sexuais.

É assim, que o ex – um homem bonito, de sexy pronúncia australiana, famoso e bem sucedido produtor musical, de “quase dois metros” de altura e com um pénis que prova que “sim! o tamanho importa” e a eficácia ajuda – Brad (Adam Demos), regressa à sua vida.

A questão do tamanho do pénis de Brad é de extrema importância no argumento de “Sex / Life”, pois além de um plano frontal em que o público é brindado por uma digna visão de nudez, somos confrontados com uma cena, num balneário de um ginásio, em que o espaço é partilhado pelo marido e pelo ex de Billie, sendo que um tem metade do tamanho do outro em vários e literais sentidos do termo. Entre Cooper e Brad não há uma linha que os separa, há o tamanho a diferencia-los…

Em “Sex / Life“, o foco do prazer está centrado na personagem feminina principal. Há claramente um cuidado em transmitir uma espécie de positividade sexual, blindada com grande destaque à saudável e pertinente palavra consentimento. Mas este bom conceito não é suficiente para salvar a série Netflix de todas suas falhas. Sendo a maior e mais vincada, a falha constante e a incapacidade em equilibrar sexualidade saudável com desejo sexual. O desejo sexual de Billie é quase que retratado como uma patologia, um transtorno obsessivo-compulsivo.

A forma como a personagem principal abandona a sua vida profissional e académica e a forma como interage com as outras mães suburbanas é tendenciosa e desagradável. Os constantes flashbacks e cortes cronológicos são incomodativos, sobretudo quando, no mais intimo dos momentos entre uma mãe e um filho, o ato de amamentar, a mulher resvala em recordações ardentes com o seu ex-parceiro.

Sex / Life” podia ter como foco uma saudável abordagem à vida sexual de uma mulher, podia ter contatado tudo aquilo que conta de forma explícita, mas sem estar repleta de clichés, sem ser desequilibrada ou narcisista. Em momento algum a série em causa contribuiu para uma emancipação feminina digna do termo.

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