Pouco expressivo nas premiações em torno do Oscar e pouco citado em balanços de Melhores Filmes da História, “The Dreamers” (2003), de Bernardo Bertolucci, teve um impacto imenso no Brasil, onde foi lançado com a tradução literal, “Os Sonhadores“. Não foi fenómeno de público por lá, mas teve muita reverberação entre formadores de opinião. O principal motivo do seu êxito é o facto de espelhar a inquietude de toda uma geração que passou os anos 1960 sonhando em destronar os militares do Poder, em Brasília. Como Bertolucci, desde o seu seminal “Prima Della Rivoluzione” (1964), teve sempre conexão direta com o Cinema Novo de Glauber Rocha & Cia, era como se aquele filme sublimasse o pleito de um país que luta há décadas contra o trauma do regime fardado. Esse fantasma histórico encontrou no filme do mítico realizador de “Il Conformista” (1970) uma espécie de antibiótico. O efeito colateral dessa medicação estética foi a ânsia por um filme feito em terras brasileiras que alcançasse um timbre de excelência similar ao de Bernardo B na recriação das brigadas juvenis na militância estudantil. No hiato de 20 anos desde a estreia do filme com Eva Green, Louis Garrel e Michael Pitt, um thriller paulista, da realizadora Vera Egito veio sanar essa angústia. “A Batalha da Rua Maria Antônia“, que lhe deu o troféu Redentor de Melhor Filme de Ficção no 25º Festival do Rio, no dia 15 de outubro, foi uma feroz resposta a um desejo de sublimação. Nesta quarta-feira, essa reesposa vai entrar no cardápio da Mostra de São Paulo.
A sua narrativa se impõe em ousadia formal e refinamento no quesito da reflexão política. O seu fino guião investe na tensão ao recriar o passado tenebroso de São Paulo sob uma estrutura de suspense à moda “Z“, de Costa-Gavras.
Indicado a prémios em festivais de Valladolid e Chicago, “A Batalha da Rua Maria Antônia” vai se impor na Mostra de SP a partir de um jogo de armar de 21 planos-sequência. Um espetáculo entre o drama e a ação se forma na recriação proustiana de 1968 (o chamado Ano Que Não Acabou, no livro homónimo do jornalista Zuenir Ventura). A narrativa chega a ser inóspita para os padrões latinos no seu arranjo nada convencional de ideias. Arma-se um teatro de máscaras na trama quando o líder estudantil Benjamim (Caio Horowicz, impecável) aparece no campus da Faculdade de Filosofia da USP para manter os seus colegas longe da inércia. A personagem agita o grupo e outros em meio a uma batalha em outubro do 1968.
Os seus métodos são sedutores, mas parecem desrespeitar códigos de ética e sentimentos. Benjamin encena um jogo de decapitações com os companheiros da turma e incomoda, em especial, uma atormentada professora, Leda (Gabriela Carneiro da Cunha, em estado de graça em cena). Ela é a intelectual que sofre com a manipulação de que é vítima. Tem o ethos maduro que falta ao “The Dreamers” de Bertolucci.
Em nome da democracia, ela resiste nos seus ideais. Já Benjamin tenta manter inflamado o corpo discente e o docente da sua instituição. Há gente abalada por mágoas afetivas. Outras temem a foice do Estado que vestia a farda na época. Mas um grupo reage à mordaça do governo, sendo oprimido pela direita radical.
Na direção de fotografia, Will Etchebehere ricocheteia por planos de triagem de diferentes salas, corredores e centros académicos de uma faculdade encarada, à época, como o ovo da serpente dos inimigos do governo de farda. A montagem de Julia Zakia amplifica o fluxo de imagens cor de chumbo, penumbrosas, revivificando um pretérito imperfeito, que reside como zumbi no imaginário sócio-político da nação.
Espartana nas suas escolhas, a realizadora de “Amores Urbanos” (2016) discute resiliência, combate e inércia à luz da brasilidade. Em seu agonizante filme, a luta histórica de 1968 é um espaço de afirmação de identidade. É um ritual que nos baliza pela resistência e que espelhou combates recentes, na Era Bolsonaro. Mas esse ritual despertou bestas e invocou diabos. É o que o filme mostra, sobretudo na figura mefistofélica de Benjamin, construído por Horowicz.
Numa estrutura de edição que assume o número dos planos como se fosse um relógio, a contabilizar a armação e a explosão inevitável de uma bomba moral, Vera “encena” a SP do fim dos anos 1960 menos pelos e mais pelas impressões do que o passado teria sido. Concentra tudo num tempo curto, numa noite definitiva. As personagens enfrentam os ataques do Comando de Caça aos Comunistas vindos do outro lado da rua, da Universidade Mackenzie. Quando o confronto explode, cocktails molotov, pedras, paus e outras bombas são atiradas. É uma narrativa de 24 horas nas quais conflitos afetivos, tensões sexuais, ciúmes e traições ideológicas (concentradas na professora Lea), revisitam um pretérito imperfeito.


















