Um dos principais espaços exibidores de cinema de arte e ensaio do Brasil nas últimas quatro décadas, o Circuito Estação, no Rio de Janeiro, com salas nos bairros de Botafogo e da Gávea, abre 2026 com uma das mais completas retrospectivas da obra da belga Agnès Varda (1928–2019). O evento intitula-se De Lá Para Cá – Uma Mostra da Varda e decorre de 7 a 21 de janeiro, arrancando com a projecção de Cléo de 5 à 7 (1962), a ficção mais conhecida da sua prolífica filmografia, composta por cerca de 60 títulos.
No seu empenho contínuo na formação de públicos, o Estação incluiu igualmente no repertório a projecção da primeira longa-metragem da realizadora, La Pointe Courte (1955). Revisões históricas recentes sugerem que este drama amoroso constitui o ponto de partida da Nouvelle Vague, movimento responsável por modernizar — não apenas a nível técnico, mas também na reflexão filosófica — a construção do discurso audiovisual no final da década de 1950. Na narrativa, um casal em crise regressa à pequena aldeia de Pointe Courte, onde Lui, o marido (interpretado por Philippe Noiret), viveu a infância. O regresso às origens poderá ser uma tentativa de recuperar o afecto da companheira, Elle (Silvia Monfort). No local, ambos atravessam momentos de reflexão sobre a relação, enquanto o quotidiano dos habitantes decorre à sua volta. Trata-se de uma cartografia de vivências construída a partir de um olhar até então inédito no cinema. Foi ali que o “vulcão” Varda entrou em erupção, dando origem a obras como Lions Love (1969) e Sans Toit Ni Loi (Prémio Leão de Ouro, 1985).
Num momento em que a falta de equidade salarial entre géneros, resultante do sexismo, se afirma como uma das questões centrais do cinema, dentro e fora do ecrã, Agnès Varda permanece eterna, como um farol a iluminar novas estratégias de afirmação das potências femininas. A realizadora faleceu há seis anos, após uma batalha contra um cancro da mama. Morreu um mês depois de apresentar a sua última longa-metragem, o ensaio documental Varda par Agnès (2019), no Festival de Berlim, cerimónia em que recebeu o prémio honorário Berlinale Camera pelo conjunto da sua obra.
“Parecia uma loucura uma rapariga que nem tinha visto assim tantos filmes propor-se abrir um debate estético numa França onde as vozes masculinas eram predominantes nos sets, mas eu tinha a ingenuidade e a coragem para o fazer”, afirmou Agnès Varda na Berlinale.
Morreu aos 90 anos, enfrentando a doença com serenidade, sem nunca abdicar do trabalho. Pioneira da modernização política e narrativa da produção audiovisual, a artista por detrás de L’une Chante L’Autre Pas (1977) e Visages Villages (2017), co-realizado com JR, nasceu Arlette Varda, mas mudou legalmente de nome aos 18 anos. No seu percurso acumulou um Óscar honorário e uma Palma de Ouro Honorária. Ganhou notoriedade num período revolucionário, durante o qual foi casada com Jacques Demy (1931–1990), mestre europeu do musical e realizador de Les Parapluies de Cherbourg (Prémio Palma de Ouro, 1964). Viveu com ele entre 1962 e a morte do cineasta, com quem teve um filho, o actor Mathieu Demy, hoje com 46 anos. Antes disso, numa relação com o actor Antoine Bourseiller (1930–2013), teve uma filha, Rosalie Varda, figurinista de renome que, nos últimos anos, trabalhou também como produtora da mãe.
“A minha mãe passou os últimos 15 anos dedicada às artes visuais, explorando o formato da instalação em vídeo. Pouca gente conhece em profundidade o que ela fez nesse período. Tal como poucos jovens hoje conhecem os filmes que Demy realizou. O legado deles precisa de continuar e de ser valorizado pelas novas gerações”, afirmou Rosalie ao C7nema, numa recente entrevista em Paris.
Clássicos de culto da filmografia da cineasta, como Jane B. par Agnès V. (1988), Kung-Fu Master! (1988) e Jacquot de Nantes (1991), integram igualmente o repertório do Estação.

