Quando foi fotografar “A Rainha” (“The Queen”, 2006) para Stephen Frears, Affonso Beato viu o realizador inglês citar a figura do matador de cangaceiros Antonio das Mortes, em “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1969), de Glauber Rocha, como referência. Eis que o artesão brasileiro da imagem teve que dizer: “Stephen, quem fotografou aquele filme fui eu”. Dono de um currículo internacional invejável, que vai de “Rock de Fogo” (“A Fera do Rock”, no Brasil), de Jim McBride, ao oscarizado “Tudo Sobre a Minha Mãe” (1999), de Pedro Almodóvar, passando por “O Amor Nos Tempos Do Cólera” (2007), de Mike Newell, Beato tem agora uma nova missão para executar. É ele quem idealizou o novo espaço de cineclubismo no seu país, que começa neste dia 11 de janeiro, em versão online, às 21h do horário português e às 18h no Brasil. Premiado no Festival SXSW, em Austin, no Texas, com uma láurea para a fotografia de Jacques Cheuíche, o documentário “Amazônia Groove”, de Bruno Murtinho, sobre o esplendor musical (e sensorial) da região amazónica, é que vai abrir o Cineclube Casas Casadas, em Laranjeiras, onde fica a sede da distribuidora Riofilme.
A iniciativa é comandada por Beato, integrante da American Society of Cinematographers (ASC). A curadoria fica ao cargo do crítico de cinema Ricardo Cota e a organização conta com o apoio do cineasta Cavi Borges. A sessão e o debate, que será mediado pelo realizador Walter Lima Jr., com a presença de Cheuíche, será realizado via web. Inscrições podem ser feitas no site da Associação Brasileira de Cinematografia: A atividade é gratuita. Na entrevista a seguir, Beato fala do conceito estético do projeto.
Qual é o projeto do Cineclube para as Casas Casadas e que vertentes do cinema vamos encontrar por lá?
Uma visão ampla do Cinema com ênfase no Cinema Brasileiro, abordando a perspectiva histórica e contemporânea, abrindo uma janela necessária para o Cinema Estudantil Brasileiro.
Qual é a conexão da ABC com esse evento e da Associação com um espaço tão plural quanto o das Casas Casadas?
A ABC-Cursos de Cinema é uma divisão/departamento da Associação Brasileira de Cinematografia. O Cineclube está integrado à ABC Cursos de Cinema. É preciso deixar claro que se trata de iniciativa de uma seção entidade que possui um leque grande de açōes. É uma honra ocupar o generoso espaço das Casas Casadas e contribuir para a sua representatividade na vida cultural da cidade do Rio de Janeiro.
Qual é a relevância da cultura do cineclubismo nestes novos tempos e nestes novos arranjos mediáticos que temos, com streamings e YouTube?
Os cineclubes exercem um papel curatorial. Diante de tanta oferta, é preciso discipliná-la em termos de conteúdo para o melhor aproveitamento dos espectadores. E isto só um cineclube com uma boa e diligente curadoria pode fazer.
Qual é o lugar do crítico Ricardo Cota, que foi curador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna, neste projeto?
O Cota exercerá exatamente o papel de coordenador e curador, organizando a programação em conjunto com membros dos outros cineclubes integrados. Ele e o realizador Cavi Borges (que mantém o acervo de DVDs chamado Cavídeo nas Casas Casadas) serão responsáveis por esta organização.
Quais são os seus demais projetos neste ano nas telas?
Há dez anos que estou afastado das filmagens e me dedico exclusivamente a ensinar Cinematografia tanto ao ArtCenter College of Design, em Pasadena, como organizer, e a ensinar na ABC Cursos de Cinema. Isso já tem me proporcionado muito trabalho e, felizmente, muita realização.

