Numa entrevista à Telerama, o cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul afirmou que não acredita que a pandemia vá destruir o cinema e que, depois dela, virá um novo “começo”.
Famoso por filmes como “O Tio Boonmee Que se Lembra das Suas Vidas Anteriores” ou “Cemitério do Esplendor“, o cineasta coloca-se ao lado dos estudantes que têm protestado nos últimos meses na sua Tailândia natal, e garante que com o fim da pandemia, o seu próprio cinema deveria mudar: “ O que acontecerá após esta pandemia é um novo começo. A Tailândia não é mais a mesma. O meu trabalho não deveria ser o mesmo. Desejo observar as vidas que são significativas para mim, os jovens, a minha família, os meus antigos professores. Acho que posso encontrar-me neles. É um processo contínuo, uma experiência, uma forma de relacionamento.”
Com novo filme pronto a ser lançado no próximo festival de Cannes, já que em 2020 o certame não se realizou, Apichatpong diz que o Covid-19 travou o fluxo do seu trabalho, mas gerou um momento de reflexão sobre se as nossas ações fazem sentido: “Esta pausa forçou-me a desacelerar. Normalmente trabalho sem parar. Percebi a importância de encontrar um equilíbrio. A pandemia está a forçar-nos a olhar para nós próprios, a nos reposicionar e sobreviver. Mas, isso pode tornar-nos egoístas. E os nossos interesses reduzem-se. Mesmo confinado em casa pude observar a beleza que me rodeia, do que posso assistir a partir de casa. Uma reflexão que ganha vida na curta-metragem October Rumbles. Também penso num amigo que morreu há poucos dias. O curso da sua vida parou. É uma lição. Para pensar no que realmente importa.”
Preferindo “não ter um rótulo” dentro da 7ª arte, pois assim sente-se “mais livre”, o tailandês explicou ainda que o seu filme “Memória”, com Tilda Swinton e Jeanne Balibar no elenco, é sobre solidão e que filmar na Colômbia – em vez de na Tailândia, como habitualmente – permitiu-lhe sair da sua zona de conforto: “Quando tudo está confortável, corremos o risco de estagnar! Tudo era tão diferente. A maneira de se vestir, o ritmo, a luz, a comida, outra linguagem. Uma experiência enriquecedora, e fiquei surpreso ao me sentir tão confortável num mundo tão longe do meu.”




