“É completamente estúpido pensar que você só pode amar um [tipo de olhar] à custa do outro”, disse a realizadora

Numa entrevista à revista francesa So Film, a cineasta Céline Sciamma (Bande Des Filles; Portrait de la jeune fille en feu) veio a terreno defender o apelidado “male gaze” (olhar masculino) de Abdellatif Kechiche, cineasta extremamente criticado após a exibição em Cannes do seu Mektoub My Love: Intermezzo [na imagem acima], especialmente pelos tais 13 minutos de uma cena que envolve sexo oral.
Sciamma argumenta que há valor em ambos os olhares (o masculino e o feminino) se o espectador estiver disposto a dedicar tempo para desconstruí-los, afirmando que “foi extremamente interessante ter os nossos filmes em competição” em Cannes: “Graças ao filme de Kechiche e a ‘Portrait’, os críticos franceses foram confrontados com questões do olhar masculino e feminino e com os problemas decorrentes do ato de olhar. Kechiche e eu fazemos filmes que atuam como manifestos sobre essas questões. É completamente estúpido pensar que você só pode amar um à custa do outro. Pelo contrário! É aqui que certos críticos e espectadores franceses não estão a fazer o trabalho de desconstrução suficiente. Podemos amar absolutamente os dois filmes. Não estamos à altura da natureza empolgante deste momento se começarmos a reduzir tudo a questões de ‘bom ou mau; moral ou imoral; voyeur ou não voyeur’. Esse não é o ponto. A chave é entender o que anima essas imagens e o que elas procuram transmitir. “

Céline Sciamma e Abdellatif Kechiche
Pegando no caso das cenas de sexo de A Vida de Adèle, que geraram igualmente críticas pelos abusos psicológicos e laborais que Lea Seydoux e Adèle Exarchopoulos afirmaram na época ter sofrido, Sciamma defendeu o resultado final: “Achei que as cenas de sexo se encaixavam perfeitamente no projeto mais alargado de Kechiche: retratar o seu relacionamento com as atrizes e o relacionamento delas entre si (…) Isso é fascinante, desde que você mantenha uma postura ativa, o que é essencial após assistir aos filmes de Kechiche. [Devemos] evitar julgamentos básicos e ter a coragem de questionar o olhar – o nosso e o do realizador. Mas isso requer algum esforço por parte do espectador”.

