Brad Pitt riu-se de James Gray pelo menos duas vezes na conferência de imprensa do febril Ad Astra no Festival de Veneza, mas nenhuma delas foi por deboche.

A equipa de Ad Astra| La Biennale di Venezia – foto ASAC
O riso veio quase que involuntário, em resposta às tiradas cinéfilas do realizador de filmes de culto como Two lovers (2008) no Lido, onde desfilou conhecimento. A massa de jornalistas estava ávida por saber da forma como um realizador tão intimista encarou uma máquina de efeitos especiais para Hollywood morrer de orgulho. Mas ele preferiu viajar no cosmos da sua memória.
“Creio que foi Edwin S. Porter, em ‘The Great Train Robbery’, quem fundou a perceção de que close-ups podem decifrar a alma humana. E o cinema existe para isso. Eu fiz este filme sob a inspiração de um documentário que vi em 1989, ‘For all mankind’, que me revelou que não vemos a luz das estrelas do espaço“, disse Gray, acossado pelos esgares de Pitt, que se rasgou em elogios pelo cineasta.
Por pouco, Pitt não foi a estrela do anti-épico The Lost City of Z, lançado na Berlinale de 2017. Mas os dois uniram forças neste projeto com cheiro a Oscar, que pode sair de Veneza com a Copa Volpi para o seu protagonista ou mesmo um prémio de direção. O domínio de Gray sobre a gramática do cinema sci-fi é absurdo, com direito a uma sequência inicial de acidente nas estrelas capaz de tensionar os músculos. “Todo o mito… como toda a grande narrativa… parte de um microcosmo“, disse Gray, revelando que, em Ad Astra, a aldeia de onde parte corresponde a uma relação afetiva.
Produzido pelo carioca Rodrigo Teixeira, da RT Features, a nova longa metragem do homem por trás de We Own The Night (2007) estrutura-se a partir da jornada de um astronauta, Roy (Pitt), por seu pai (Tommy Lee Jones), também um pesquisador do espaço, que desapareceu numa missão. Roy passa toda a sorte dos perigos atrás dele e da fonte de uma onda de raios cósmicos que ameaça o Sistema Solar. Encara desde cobaias siderais com hidrofobia (macacos possuídos com raiva) até homens armados que querem debelar os seus planos. Mas o coração fala mais alto. E a fala dele deixa Gray criar uma ficção científica à la Hawks, com closes e planos fechados que valorizam mais o olhar de Roy do que o exotismo estelar.

Adam Driver e Scarlett Johansson | La Biennale di Venezia – foto ASAC
O filme dividiu opiniões, muitas cheias de preconceito com a natureza pop comercial da longa-metragem. Já Noah Baumbach agradou com mais e melhor unanimidade com o brilhante Marriage Story. Na sessão de imprensa rolaram três salvas de aplausos durante a projeção pela força dos diálogos de uma trama sobre o fim de um casamento. Uma atriz de teatro (Scarlett Johansson, no seu melhor desempenho) põe fim ao seu relacionamento com um diretor de teatro autocentrado (Adam Driver, em brilhante atuação), o que gera lágrimas e frases dignas de anotação. A melhor: “Você não tem que ficar com raiva porque ela fez amor comigo. Você tem que ficar com raiva porque ela me fez sorrir“, diz Driver em cena
Veneza prossegue até 7 de setembro.

