«A Segunda Vida» de Christiane F.

(Fotos: Divulgação)

Christiane F. foi possivelmente a toxicodependente mais famosa do mundo. Tudo começou em 1978, ano em que saiu um livro autobiográfico em que a jovem Christiane relatava aos jornalistas Kai Hermann e Horst Rieck a sua experiência com drogas duras, “Christiane F., 13 anos, drogada e prostituta” foi uma frase que marcou a memória da época. O livro caiu como uma bomba na sociedade alemã, ainda pouco aberta aos comportamentos dos seus adolescentes, e sobretudo ao facto de venderem os seus corpos para uma nova dose de heroína. Rapidamente o fenómeno alastrou pela Europa.

O relato autobiográfico de Christiane sobre a descida de uma adolescente revoltada que entrou no mundo da droga tornou-se numa espécie de substituto parental à conversa sobre os malefícios da droga. O relato cru, sujo e terrivelmente real recebeu o título original de Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, em Portugal simplesmente Os Filhos da Droga.

Ainda hoje guardo a edição de capa verde do Círculo de Leitores, emprestada vezes sem conta e lida avidamente pelos adolescentes, inicialmente obrigados pelos pais, mas depois ficando eles próprios envolvidos nos relatos. Em 1981, o livro é adaptado ao cinema com grande sucesso através do cineasta alemão Uli Edel, que escolheu a então jovem Natja Brunckhorst [que há dois anos surgiu num pequeno filme que passou pelo IndieLisboa, Totem] para o principal papel.

Com isto, Christiane F. tornar-se-ia muito conhecida, bem-sucedida, e claro, com bastante dinheiro. A verdade é que embora Christiane Vera Felscherinow se tenha transformado no estandarte parental contra os malefícios da droga, após o livro e o filme nunca mais soubemos nada dela. 

O que é feito de Christiane F.?

A resposta chega agora, também em livro, Christiane, agora com 51 anos volta a relatar a sua vida em Mein zweites Leben (tradução livre por A minha segunda vida). Numa trajetória cheia de altos e baixos, e ainda financiada pelos direitos do seu primeiro livro, Christiane conta à escritora Sonja Vukovic o resto da história. Ainda hoje a lutar contra a adição às drogas, Christiane voltou a cair fundo após de ter tornado conhecida. Privou com estrelas da música, esteve presa, colecionou relações fracassadas e até abortos.

Viveu vários anos na Grécia sem um lar fixo, contraiu hepatite, e receou não chegar a viver até aos 30 anos. Em 1996, com 34 anos de idade, foi mãe, mas a sua notória incapacidade para a maternidade acabaria por a levar a que o seu filho lhe fosse retirado pelas autoridades, acabando por ter novos problemas quando raptou a criança e o levou para Amesterdão. Hoje, o seu filho tem 17 anos e embora criado por pais adotivos, ela tem direito a visitas semanais.

A ideia do segundo livro surge para acabar com alguns boatos sobre a sua vida, mas igualmente com outro propósito, financiar a Fundação Christiane F. criada para apoiar filhos de toxicodependentes. Além disso, foi igualmente criado o site www.christiane-f.com, com o objetivo de afastar os jovens das drogas, como o seu livro fez há mais 30 anos atrás.

Será que ainda veremos no cinema A Segunda Vida de Christiane F.?

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