Córtex (Dia 4): o dia da competição internacional e da vitória de… «Primária»

(Fotos: Divulgação)

Aquel no era yo

O início deu-se com meia casa, nada mal para um domingo à tarde em Sintra. A primeira proposta foi Aquel no era yo, de Esteban Crespo. Uma curta espanhola muito profissional, feita como dizem os manuais. A história centra-se em crianças-soldado, nas profundezas de Africa, em pleno conflito. A forma escolhida para a narrar, foi o testemunho na primeira pessoa de uma ex criança-soldado. Foi, sem dúvida a obra mais intensa da tarde.

O segundo filme, foi o francês Les Lézards, de Vincent Mariette. Este destacou-se como a surpresa do dia. Inicialmente, parece feito e escrito sobre uma típica conversa de balneário (dois homens a falar de mulheres, seios e encontros amorosos). No entanto, à medida que avança, a dupla vai revelando sentimentos e emoções. O preto e branco só realça o ambiente intimista do filme.

A terceira produção da tarde, veio da Turquia. Falamos do já conceituado Sessiz-Be Deng, de Rezan Yesilbas. A história revisita o ano 1984, onde a censura aos curdos era sufocante. A personificar essa censura, temos uma mulher curda durante a visita ao seu marido, fechado numa prisão onde só se pode falar turco. Parca em palavras, a curta é contada através de imagens e emoções. Sem dúvida, a obra mais forte da competição internacional.

De seguida fomos presenteados com uma produção belga, falada em russo. Trata-se de Le cri du Homard, de Nicolas Guiot. Aqui, assistimos ao regresso a casa de um soldado russo, com stress pós-traumático. Casa emprestada, pois a família é emigrante em França. O filme falha por se alongar demais em pormenores que não interessavam tanto. Porém, algumas cenas são cheias de qualidade e a ideia geral é interessante.

Le Maillot de Bain, de Mathilde Baylet, foi a penúltima proposta, seguindo-se a entrega dos prémios. Nesta história, o roubo de uns calções de banho, simbolizam a ausência de uma figura paterna próxima. Remi é um rapaz que, ao ver a interacção entre um pai e uma filha, procura a proximidade que eles têm. Como não a pode ter, sonha. A forma como esta curta metragem é contada, sempre centrada em Romi, é de sensibilizar o mais feroz coração de pedra.

Le Maillot de Bain

Por último, coube-nos o pior filme do dia, a curta espanhola Los Demonios, de Miguel Azurmendi. Conceptualmente com deficiências no som e visualmente algo foleira, serve como uma espécie de homenagem a Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. Centra-se num grupo de 3 adolescentes, com apetência para a destruição e para espancar mendigos. No fim, pouca coisa resulta, sendo qualitativamente a pior do certame.

Finalizado que estavam as sessões de curtas, foi altura de agradecimentos e de balanço (muito positivo) do Festival. Mais uma vez, foi Michel Simeão a subir ao palco. Depois, foi tempo de chamar duas juradas (as simpáticas Carla Chambel e Graça Castanheira), para anunciar os vencedores.

O Palmarés 

Surpresa é a palavra que melhor descreve a entrega dos prémios. No entanto, uma surpresa plenamente justificada e justíssima.

Na votação pelo público, três curtas ficaram empatadas. Foram elas, Fontelonga (de Luís Costa), Teles (José Magro) e Primária (de Hugo Pedro). Certo é que qualquer uma das curtas merecia e devia vencer. Infelizmente, só uma pode. No desempate feito pelo júri, calhou a Primária arrecadar o prémio.

A surpresa começou quando foi anunciado o prémio do júri da melhor curta nacional. Numa mostra recheada de obras conceituadíssimas, foi Primária (novamente) a arrecadar este prémio. Isto ganha uma nova relevância, quando se pensa que esta curta foi rejeitada em outros festivais.


Primária

Em relação ao prémio de melhor curta internacional, a escolha recaiu em Le Maillot de Bain. Aqui a escolha foi unânime e merecida, diga-se. Infelizmente, nenhum dos realizadores das produções internacionais puderam estar presentes.

Por fim, houve ainda tempo para uma menção honrosa para Rhoma Acans, de Leonor Teles. A curta documental que mostra um lado mais privado da vida em comunidade cigana. Mais um tónico para uma jovem realizadora em início de carreira.

Aliás, o Córtex mais que optar pelas melhores, escolhe as que têm mais potencial. Curtas como Gambozinos, de João Nicolau, eram qualitativamente superiores. Todavia, um prémio a um jovem em início de carreira, em vez de galardoar o que já foi amplamente elogiado, tem muito mais mérito.

Assim, o festival acaba por servir para mostrar e apoiar, o que de melhor se faz em Portugal. Tem uma postura pedagógica e imparcial. Procurando incentivar, quem merece ser incentivado, tendo por base o esforço e o mérito. Estas duas últimas palavras são as que melhor descrevem tanto o festival, como os responsáveis por este, os sempre disponíveis e incansáveis, José Chaíça e Michel Simeão. Esperemos que fique por cá durante muitos anos.

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