Córtex (Dia 3): curtas portuguesas de novo em destaque

(Fotos: Divulgação)

O terceiro dia começa novamente com uma desilusão. Mais uma vez, a sala estava praticamente vazia. Os ares de Sintra, por mais belos que sejam, parecem teimar a não ser os mais convidativos para um festival deste género. No entanto, tal facto não afeta a qualidade da montra apresentada.

Inicialmente, como no dia anterior, antes da sessão foram chamados ao palco os realizadores presentes. José Magro (realizador de Teles e diretor de fotografia de Um Rio Chamado Ave), Tiago Rosa-Rosso (Deus Dará) e Hugo Pedro (Primária).

Foi então tempo de iniciar o espectáculo, em dia de sessão dupla. Na primeira parte, foram mostradas 5 curtas. A iniciar, e mais uma no âmbito Guimarães Capital da CCultura 2012, a já afamada Na Escama do Dragão (de Ivo M. Ferreira). Apesar dos apoios e dos custos de produção, tal investimento foi mais visual do que na construção da história. Aqui, uma jornalista (Margarida Vila Nova) procura descobrir a verdade sobre o naufrágio de um barco, 8 séculos antes.


Na Escama do Dragão

A segunda proposta, e uma das fortes concorrentes a prémio do público, foi Teles. Nesta curta documental é narrada na primeira pessoa a história de Teles, o marcador de linhas do campo de futebol da equipa local. Mais do que focar-se na profissão, esta obra centra-se no homem e nas suas tristezas. Qualitativamente, uma das melhores da mostra. Para além disso, nota-se um cuidado exemplar na parte visual. Outro facto a constatar é a naturalidade e o realismo do documentário. Ainda que muito jovem, é já possível vislumbrar talento e futuro para o jovem José Magro.

Para terceira curta tivemos Torres (André Guiomar). Este acabou por ser o filme que mais passou despercebido, procurando retratar um dia de um jovem, que se apresenta na fase de construção da sua identidade.

Falemos agora de Deus Dará (a 4º proposta). Aqui, existe uma linguagem mais crua, recorrendo frequentemente a vernáculo para fazer passar uma mensagem de dureza. A história é interessante, focando a vida de um assalariado que não recebe há 2 meses e por isso tem de enveredar pela vida do crime, para pagar as contas. Percebe-se a intenção, mas a concepção é algo deficitária.

Deus Dará

Para finalizar esta primeira sessão fomos presenteados com Primária, um retrato documental do último período, de alunos do 4º ano. Este é outro forte candidato a prémio do público, pelo vínculo afetivo que vai criando com a audiência., focando-se na altura da despedida do 4º ano, em época de transição para o segundo ciclo. A concepção do filme e as filmagens foram bem pensadas. A juntar a este facto, acaba por viver do carisma das crianças que participam neste documentário.

Feita que estava esta primeira parte, foi tempo de intervalo, com um balanço positivo das primeiras duas horas do dia, ainda que sem público. Felizmente, e regressados da pausa, a sala estava, finalmente, bem composta.

A abrir, após o interregno, surgiu O Facínora, de Paulo Abreu. Esta obra é talvez a mais desconcertante e ao mesmo tempo a melhor pensada do certame. A genialidade da composição musical de Paulo Furtado e Rita Redshoes serve não só de fundo, como de fio condutor à narrativa. Aliado a isso, temos uma curta altamente estilizada. Muda e a preto e branco tão retro que serve de homenagem a filmes do género, como Nosferatu. A história é uma dualidade de perspetivas bem/mal, sobre um frade justiceiro que cai em desgraça.

Após este excelente filme, foi a vez de Um Rio Chamado Ave (Luís Alves de Matos), entrar em ação. Aqui o protagonista é o próprio rio, sendo ele a contar a história. Esta curta vale pela imagem, é das propostas visualmente mais interessantes da competição.

Foi então a vez de Patrick Mendes e o seu Herdade dos Defuntos. O filme apresenta uma mulher robusta, empilhadora de homens, tomando-os como propriedade. Acaba por ser uma proposta interessante, com um carácter critico social forte.

Herdade dos Defuntos

Má Raça (André Santos e Marco Leão), foi a produção que se seguiu. Aqui, a narrativa foca as relações opacas entre uma mãe e uma filha, vista pelos olhos do cão Simão, que acaba por ser uma vítima colateral desta “não relação“. Excelente ideia e belíssima filmagem. A forma como filmaram reflexos para apresentar o vazio, é extremamente bem conseguida.

A penúltima curta do dia foi Rei Inútil, de Telmo Churro. Inicialmente, somos apresentados a Tiago, um aluno repetente que pede ajuda (e fala) com deus e com D. Sancho II (o seu explicador de história). Esta é talvez a maior lufada de ar fresco do festival. É uma história inventiva, que se vai gostando cada vez mais, quanto mais tempo passa sobre a sua visualização. Outra forte candidata a prémio do júri.

Por fim, surgiu a curta animada do festival. Em Carratrope (Paulo D´Alva) temos uma forte crítica ao mundo do cinema, aos críticos e aos circundantes a esse mundo. Com imensas referências a suínos e uma cena onde é possível ver serem dadas pérolas a porcos. São 8 minutos de crítica estilizada a diversas vertentes do cinema, não havendo preocupação com a história. Ainda assim, uma excelente proposta.

Assim terminou mais um dia. Se o início teve pouca assistência, no final a sala estava praticamente cheia. Hoje (domingo) é dia de competição internacional, mas será difícil ter mais qualidade do que o que foi apresentado até aqui.

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