Córtex (Dia 1): Curtas de João César Monteiro enchem o Centro Cultural Olga Cadaval

(Fotos: Divulgação)

O primeiro dia do Córtex 4 | – Festival de Curtas-Metragens de Sintra não poderia ter começado melhor (com comes e bebes). Mais importante que isso, foi um momento para verificar que, maior que a afluência aos tão almejados croquetes, foi a enchente no auditório do Centro Cultural Olga Cadaval numa primeira sessão inteiramente dedicada a João César Monteiro (JCM) e às suas curtas-metragens.

A melhor maneira de celebrar a sua vida, dez anos depois da sua morte, foi apresentar o seu legado, numa sessão inédita, repleta de amigos e admiradores da sua obra.

Antes da visualização das curtas, houve uma apresentação do festival, por parte de Michel Simeão. Foi então tempo de chamar ao palco a eterna companheira de JCM, Ana Isabel Strindberg, que se mostrou incansável na procura destas curtas-metragens, tão mal guardadas e espalhadas por vários recantos. Não foi por isso surpresa o seu tom crítico, pelo facto de os Portugueses não saberem tratar bem o seu património.

A verdade, é que JCM sempre fez comichão a muita gente. Como disse Patrick Mendes, um dos cineastas convidados, “JCM não se ensina no conservatório, é dos poucos que é livre na concessão dos filmes e por isso sempre incomodou“.

Hoje em dia, os direitos da sua obra estão nas mãos da Zon e não há lugar para ele na Cinemateca Portuguesa. Aparentemente, comprar uma estante no IKEA, para guardar devidamente o seu espólio, custa demasiado dinheiro. Enquanto isso, pedaços de JCM vão sendo amontoados em arquivos da RTP.

As Curtas exibidas

A primeira delas, A Mãe (1979), foi feita para a RTP e é baseada no conto tradicional “o rico e o pobre“. A retrospectiva não poderia ter começado melhor. Logo nos primeiros minutos, o público não conteve as lágrimas (de tanto rir). Já aqui, havia vestígios de uma temática recorrente em JCM, a morte e a sátira a Portugal.

De seguida, e também produzida para a RTP, Dois Soldados (1979). Em tudo semelhante ao primeiro, com ênfase na ganância do ser humano.

A terceira curta, e para o mesmo fim que as predecessoras, foi O Amor das Três Romãs (1979). Dentro desta obra é possível vislumbrar todo um espetáculo cénico, visualmente desconstruindo mais um conto tradicional.

Para última curta antes do intervalo, foi apresentada Conserva Acabada (1990), uma das míticas curtas-metragens do mestre. A história gira em torno de Rapozinho, um produtor que procura fazer um filme que conte com a performance de Fernando Pessoa. Aqui, é possível apreciar mais um tema presente em muitos filmes de JCM, a glorificação da mulher e do seu corpo (particular ênfase nos seios). Nesta Conserva Acabada, a musa escolhida foi a jovem (na altura) Alexandra Lencastre (numa versão “Rua Sésamo” para maiores de 16).

Ao intervalo, já iam longas as horas, a aderência da plateia não poderia ser melhor. As palmas e os risos foram sempre uma constante.

Após este breve interregno, tivemos direito a mais 5 curtas. Primeiro, e talvez a favorita do público, fomos presenteados com o documentário Sophia de Mello Breyner Andresen (1969), um documentário que focava a poeta e a mulher no seu habitat familiar e poético, algo tão belo e natural. Como ela disse, “Para mim, a biografia só pode ser vista através da minha obra poética, aquela sou eu“. Efetivamente, aquela era ela, sendo que o bónus da obra era o jogo “encontrar Miguel Sousa Tavares“, tarefa transversal a toda a audiência.

A segunda curta pós pausa, e a mais difícil de ver, foi Quem Espera Por Sapatos de Defunto Morre Descalço (1971). Como JCM o descreveu, “Filme opaco, secreto como um búzio“. É sem dúvida a curta mais complexa e em que não há uma sequência lógica. Mostra o reflexo por detrás do que se está a ver, interpreta-se nas entrelinhas.

Mudando completamente a fotografia, mas não a linguagem, passamos para Lettera Amorosa (1995), uma curta que começa com uma rapariga a oferecer couratos e a perguntar se JCM quer pernil, acabando com ele a sugar leite vindo da banheira.

Como penúltima proposta, O Bestiário ou o Cortejo de Orfeu (1995) onde, ao lado de mais uma jovem rapariga, JCM disserta sobre a vida, tendo como pano de fundo arroz “malandrinho” com peixe.

Finalmente, somos presenteados com a última obra da noite. São 4 minutos em O Passeio de Johny Guitar (1979). Aqui, vislumbramos um JCM mais melancólico, com uma magnífica fotografia e com a banda sonora de Johny Guitar em fundo.

Outro destaque desta sessão, e que engloba todas as curtas, são as bandas sonoras. Passando de Schubert para folclore português, sempre com a música incerta no momento inoportuno. Genial.

Últimas