O realizador Michel Gondry, que está actualmente nas nossas salas com “The Green Hornet”, declarou à imprensa francesa que prepara uma adaptação ao cinema de “Ubik”, uma obra que Philip K. Dick publicou em 1966.
Nelas estamos no futuro, e Glen Runciter é dono de uma empresa responsável por rastrear e travar “Psis”, indivíduos com habilidades especiais, como capacidades de telepatia e pré-conhecimento. Tanto ele como os seus funcionários (numa ida à Lua) caiem na armadilha de uma empresa rival e (aparentemente) Runciter morre. Os seus empregados, contudo, começam a receber mensagens do falecido Runciter, quer seja nas paredes das casas de banho, multas de estacionamento ou simples produtos, como maços de tabaco, ou moedas. O tempo começa a retroceder e todos vão ter de lutar contra a degeneração física e mental que os assola. Poderá estar no spray Ubik a solução para todos os seus problemas. Mas quem afinal é que precisa ser salvo?
Relembramos que brevemente estreará nos cinemas “Agentes do Destino” (The Adjustment Buereau), um filme baseado numa obra de K. Dick, e que brevemente haverá um remake de ‘Total Recall’. “Blade Runner’ e ‘Minority Report’ são apenas dois exemplos de trabalhos do escritor que já tiveram adaptação ao cinema…
Sobre Philip K. Dick
Philip K. Dick nasceu prematuramente em Chicago a 16 de Dezembro de 1928, assim como a sua irmã gémea Jane, que morreu 6 meses após o seu nascimento. Esta perda viria a marcar Philip profundamente ao longo da sua vida, vindo inclusivamente mais tarde a culpar a sua mãe pela morte da irmã. A sua relação com os pais era difícil, e tornou-se ainda pior com o divórcio destes quando ele tinha 5 anos.
A irmã, a mãe e o pai serviram de modelos para muitas das personagens que viriam a popular os universos fictícios de Dick. Em particular a morte de Jane, e a sua separação dela contribuiu para os dilemas dualistas que dominaram o seu trabalho criativo – ficção científica/géneros clássicos, real/ficção, humano/andróide. Era a partir destes pólos dualistas que duas vastas questões presentes no seu trabalho emergiram: o que é real?, e o que é humano?
Philip K. Dick sofreu durante a sua vida vários episódios de angústia psicológica e esgotamentos nervosos, tendo chegado a ser diagnosticado como esquizofrénico no final da sua adolescência. Outros psicoterapeutas e psiquiatras viriam a fazer outros diagnósticos, incluindo o de que ele era perfeitamente são.
No início dos anos 50 Dick começou a publicar histórias nas revistas ‘Pulp’ de ficção científica da época a um ritmo alucinante. No seu apogeu criativo publicou 16 livros de ficção científica entre 1959 e 1964.
Enquanto foi vivo Philip K. Dick foi respeitado por fãs de ficção científica e colegas escritores, embora as vendas das suas obras nunca tenham igualado as de escritores de ficção científica mais populares da época, como Isaac Asimov, Robert Heinlein e Frank Herbert. No entanto, durante a sua vida as suas obras foram largamente ignoradas pelos críticos e leitores dos géneros mais clássicos. Foi após a sua morte, em 1982, aos 53 anos, que se tem verificado um interesse crescente pelas suas obras.
Philip K. Dick era um homem complexo e profundamente perturbado. Dado a perturbações psicossomáticas, sofria de agorafobia, depressão e tendências suicidas. Era um visionário religioso cuja teologia era articulada nas suas obras de ficção científica. Era um escritor americano de uma singularidade extraordinária, autor de mais de 30 livros e mais de 100 pequenos contos.
Dick conseguiu criar um legado consistente e visionário que fez com que a sua influência se fizesse sentir na cultura contemporânea.
Características presentes nas obras de Philip K. Dick:
Falsas realidades – Dick mantém-se como o criador do mito da falsa realidade. As suas personagens confrontam-se frequentemente com questões como “O que é real?”
Humano vs máquina – Dick questionava-se como seríamos capazes de reconhecer o autenticamente humano numa sociedade tecnológica. Viu a linha entre o humano e as máquinas tornar-se inevitavelmente esbatida.
Entropia – Dick era obcecado pela maneira como as coisas se deterioram, fruto das suas experiências de abuso de drogas (prescritas), 5 casamentos e imaginação visionária.
Controlo social – Dick sempre foi bastante paranóico. Chegou a acreditar que todas as tiranias políticas eram facetas de um opressor cósmico: a Black Iron Prison, um arquétipo intemporal que ele associava ao Império Romano.
INFLUÊNCIAS DE PHILIP K. DICK
O surrealismo ansioso de Philip K. Dick exerce a sua influência nos filmes de ficção científica contemporâneos de Hollywood, deixando também marcas em filmes de outros géneros. A sua influência é notória em Matrix e nas suas sequelas, onde o mundo como o conhecemos é apresentado como nada mais do que uma grelha de informação.
Outros filmes em que se notam as influências de Dick incluem Vanilla Sky, com as suas mudanças súbitas entre fantasia e realidade, Dark City, The Thirteenth Floor e Existenz. Em The Truman Show, a personagem de Jim Carey descobre que a vida que leva é uma ilusão, uma ideia que Philip K. Dick já tinha desenvolvido em 1959 com “Time Out of Joint”.
A influência deste autor também se pode sentir na série televisiva Ficheiros Secretos, através de histórias de paranóia política e conspirações extraterrestres.
Memória, paranóia, realidades alternativas…os temas de Philip K. Dick estão em todo o lado.
Shannon Griffithys & Martha Heggie

