***texto com spoilers sobre o filme “This Must Be The Place” (Este é o meu lugar) ***
A pertença é uma sensação que se tem perdido na nossa cultura ocidental. O que antes era privado é agora mostrado como representação pública de sensibilidade, provocando o quase desaparecimento do que antes era o público e uma cisão na forma como nos damos com os espaços que habitamos. Por outro lado, o progresso e a melhoria pessoal são impingidas como algo a atingir, originando uma ilusão de fluxo constante de mudança e causando um profundo mal-estar com o passado e os erros cometidos, vividos como derrotas. Estes dois movimentos (o desaparecimento do público e a ilusão do progresso) criaram, com o aumento exponencial da população e com as correntes modernas do urbanismo, o que Marc Augé chamou os não-lugares.
Não-lugares são espaços, principalmente arquitetónicos ou tecnológicos, que são destinados a ser atravessados ou consumidos, não permitido a sua apropriação ou o registo da nossa interaçãocom eles, nem ganhando importância ou significado para ser reconhecido como um lugar. A esta categoria pertencem estradas e outros espaços ligados a transporte, mas também toda amultitude de espaços ditos públicos como aeroportos, supermercados ou hotéis. Segundo Augé, estes não-lugares são produto e agente de uma crise nas relações sociais e na construção da identidade individual baseada nessas relações.
Em “This Must Be The Place” (Este é o meu lugar), Paolo Sorrentino vai explorar a geografia destes não-lugares, a forma como os ocupamos sem os habitar e a crise da identidade e das relações sociais. O tom é estabelecido nos planos iniciais onde, após nos ser apresentada a personagem principal (Cheyenne, representado por Sean Penn), se vê um estádio enorme a sobrepôr-se às casas modestas de uma rua de Dublin. Durante todo o filme, os poucos lugares que ainda existem são ameaçados pelo incapacidade das personagens os habitarem: a casa de Cheyenne onde a piscina nunca foi cheia por alguma razão desconhecida aos próprios moradores ou onde a cozinha é marcada por uma grande sinalização que identifica a sua função em francês; a casa de Mary e sua mãe, onde, para além do estádio que se ergue por detrás dela, todas as fotografias estão viradas para a parede e apenas a ausência do irmão/filho marca os dias; a casa do pai de Cheyenne, cheia de molduras vazias nas paredes e que surge só dentro do evento semi-público do velório deste; a casa de Rachel cheia de tristeza e segredo ou ainda o cemitério, onde os pais dos miúdos que se suicidaram por influência da música de Cheyenne o impedem de visitar a sua campa.
Fora desses lugares parciais, são os não-lugares que dominam o filme, com Cheyenne a fazer uma espécie de Odisseia por entre ilhas que se esforçam por existir contra os não-lugares que as rodeiam: os centros comerciais onde come e se encontra com Mary, as estradas que percorre equipadas com todo o tipo de serviços, com uma arquitetura alienante, até ao (anti-)clímax do filme, no deserto, sem qualquer ponto de referência, onde se encontra uma caravana (símbolo por excelência do desaparecimento da pertença nesses locais inacreditáveis e tão americanos que são os trailer parks), último refúgio de quem não quer ser encontrado.
O deslocamento e sentimento de não-pertença são reforçados na figura de Cheyenne: quer a nível geográfico, na fuga para Dublin imaginando um mal-entendido com o pai e no não se conseguir enquadrar nos Estados Unidos quando regressa, quer a nível temporal, mantendo um estilo de uma sub-cultura jovem, apesar da idade e de já se ter afastado dos palcos há muito, quer a nível social, no não conseguir lidar com os olhares e os comentários de quem passa e, principalmente, na sua rejeição da música e da fama que esta lhe trouxe, pela culpa que sente pelo suicídio dos dois fãs.
Poder-se-ia argumentar ainda que a figura do nazi fugido também reforça todo o conceito central de não pertença. Primeiro, escolhendo a figura do nazi que se esconde, já tão sobrecarregada mediaticamente, impedindo-o de existir no presente, pela negação do passado, e de ocupar qualquer lugar por ter de fugir a quem o procura. Depois, mostrando a 3ª idade como uma espécie de não-local, rejeitada pela cultura ocidental e relegando todos os que a ela chegam a um segundo plano, a um empecilho, obliterando qualquer registo individual pelo epíteto “velho”.
A banda sonora, mais do que se limitar a acompanhar a ação, toma um papel principal na construção do sentimento de não pertença. A música central escolhida, “This Must Be The Place” dos Talking Heads, que dá nome ao filme, parece adequar-se perfeitamente com a sua letra: “Guess that this must be the place / I can’t tell one from another”. A apresentação de várias versões desta música serve para reforçar o confronto entre o familiar e o inesperado,característico dos não-lugares. A atribuição errada da autoria da música aos Arcade Fire parece indicar a vivência do desvio provocada por estas versões como a normalidade, tal como a impossibilidade de habitar ou pertencer a um lugar se torna a norma. A importância da música revela-se a meio do filme, quando a imagem de uma casa suburbana (símbolo mediático da pertença fetichizada da América do pós-guerra) é literalmente pendurada como cenário para um concerto de David Byrne. Na cena seguinte, Byrne toca um edifício abandonado com um instrumento de sua invenção e ameaça: “a seguir toco a cidade!”, indiferente à redução do que seria um potencial lugar à sua utilização, neste caso tocar música.
As técnicas utilizadas são escolhidas para reforçar a sensação de passagem ou de impossibilidade de habitação, usando travelling shots quando a pertença não é negada pelo próprio personagem e só recorrendo aos planos fixos quando estamos em pleno não-lugar, dentro de um veículo em movimento ou a não pertença é óbvia. A sobre-estetização do filme mostra também como o visual faz parte da alienação e o urbanismo e a arquitetura são parte integral dos não-lugares e agentes da falta de pertença, como de forma provocadora o mostra Neil Leach em “The Anaesthetics of Architecture”.
Historicamente, os road movies eram a expressão de uma liberdade que foi inicialmente promovida a nível literário pelos beatniks, principalmente por Jack Kerouac em “On The Road”, cujo pico cinematográfico será “Easy Rider”. De há uns anos para cá, o género sofreu algumas alterações, surgindo algumas paródias, como os stoner movies de «Harold & Kumar» e «Aaltra», mas notando-se uma interiorização da viagem, sendo as transformações vividas pelas personagens de forma quase independente aos lugares que vão vendo, como em “Broken Flowers”, “Little Miss Sunshine” ou “Sideways”. Este primeiro desvio parece surgir com o individualismo reforçado pelo consumismo, como Adam Curtis o mostrou de forma brilhante em “The Century of the Self”. Neste caso, Sorrentino faz um segundo desvio, voltando-se de novo para os lugares e as pessoas que neles vivem, mas impossibilitando a ligação a estes, escolhendonão-lugares e mostrando a incapacidade de pertença das personagens. Se inicialmente o estilo era sobre a liberdade como expressão do eu integrado nos lugares e nas pessoas que o habitam (mesmo que se opusesse ao “Sistema”), agora Sorrentino mostra como os espaços públicos e sociais (geográficos ou virtuais) se submetem à projeção do eu provocada por um extremar desse individualismo. Isto pode ser visto na forma como nas cenas finais o nazi fugido recita a Cheyenne o que este quer ouvir.
Talvez os espaços públicos agora tenham de ser definidos como negociados, já que podem ser palco de um possível confronto entre representações e expectativas egotistas. Talvez seja verdade que a pertença agora se reduza a pessoas. Sorrentino não apresenta soluções, apesar do fim atabalhoado que dá ao filme, apenas levanta questões.
http://www.youtube.com/watch?v=JaJbG3uvQDo

