Faleceu, aos 88 anos, o célebre ator francês Alain Delon, protagonista de de clássicos como “Le Samouraï” (Ofício de Matar) e “Rocco e i suoi fratelli” (Rocco e os Seus Irmãos). “Alain Fabien, Anouchka, Anthony, bem como [o seu cão] Loubo, estão profundamente tristes por anunciar o falecimento do seu pai. Faleceu pacificamente na sua casa em Douchy, rodeado pelos seus três filhos e pela sua família”, referiram os filhos do ator em comunicado à imprensa.
Nascido em Sceaux, nos subúrbios de Paris, Alain Fabien Maurice Marcel Delo teve uma infância tempestuosa, sendo frequentemente expulso da escola. Em 1953/1954, ele serviu com os fuzileiros navais franceses na Indochina e em meados dos anos 50 teve várias profissões, de empregado de mesa a vendedor e carregador no mercado Les Halles, em Paris. Tentando encontrar carreira como ator, em 1957 fez a sua estreia no cinema com “Quand la femme s’en mêle” (1957), de Yves Allégret. Foi no início da década de 1960, ao brilhar em “À luz do Sol“, de René Clément, no papel do famoso Tom Ripley, que Delon lançou uma carreira intensa no cinema, brilhando ao lado de cineastas como Luchino Visconti (Rocco e os Seus Irmãos, 1960; “O Leopardo“, 1963), Michelangelo Antonioni (O Eclipse, 1962), Henri Verneuil (Assalto ao Casino, 1963; “O Clã dos Sicilianos“, 1969), Alain Cavalier (O Indomável, 1964), Jean-Pierre Melville (Ofício de Matar, 1967; O Círculo Vermelho, 1970) e Jacques Deray (A Piscina, 1969; Borsalino, 1970).


Em 1971 surge ao lado de Charles Bronson e Toshiro Mifune em “Sol Vermelho“, de Terence Young, seguindo-se colaborações com Joseph Losey (O Assassinato de Trotsky, 1972; Mr. Klein – Um Homem na Sombra, 1974) e Georges Lautner (Os Seios no Gelo, 1974; Morte De Um Canalha, 1977), além de novamente com Deray (Borsalino & Companhia, 1974; Flic Story, 1975; O Gang, 1977; Três Homens a Abater, 1980). Foi “Zorro” (1975) para Duccio Tessari, com quem já tinha colaborado em “Com Encontro Marcado” (1973).


No início dos anos 1980, houve um período em que Delon procurou carreira atrás das câmaras, começando com “A Coragem de um Homem” (1980), e seguindo com “Fuga para a Felicidade“, que adaptou de um romance de Jean-Patrick Manchette, em parceria com Robin Davis, e “Só Contra Todos” (1983). Como ator, trabalhou com Volker Schlöndorff (A Paixão de Swann, 1984) e Bertrand Blier (Notre histoire, 1984), entre outros.
Até 2012, ano em que recebeu o Leopardo de Ouro pela carreira em Locarno, e apesar de já sem a intensidade de trabalho das décadas de 60 e 70, Alain Delon manteve-se ativo e em 2019 recebeu a Palma de Ouro honorária no Festival de Cannes. Nessa altura, não teve problemas em afirmar à imprensa a importância da beleza na sua carreira, acrescentando que foram as mulheres que lhe deram a consciência disso e que foi graças a elas que fez cinema, quando regressou da Indochina: “Sem elas, estaria morto como um bandido. Eu fui para o exército quando tinha 17 anos. No meu regresso, um amigo disse: ‘Venha conhecer Saint-Germain-des-Prés’. Naquela noite, conheci uma mulher chamada Zizi (…) Ela tinha uma amiga que muitas vezes vinha vê-la: a atriz Brigitte Auber. Era nove anos mais velha que eu. Uma noite, foi amor à primeira vista. Foi a primeira que me disse: “Mas tens consciência do rosto que tens! Foste feito para o cinema! E tudo começou“.


Descrevendo a sua carreira – como sempre o fez – “como um acidente“, Delon não tem dúvidas que a sua aparência e físico foram a chave para o sucesso. O ator acrescentou ainda que nunca se meteu em drogas e no álcool pela sua natureza e pela diferença dos tempos: “A droga, na época, tinhas que ser VIP e rico como o Cocteau ou o Jean Marais. Agora são todos, todos os atores. (…) No entanto, eu fumava muito. Dois maços por dia. Parei aos 50 anos, senão ia morrer.”
Essa atribuição da Palma não foi feita sem polémica e alguns grupos, como a associação Women in Hollywood, acusou o ator de ser “racista, homofóbico e misógino“. Alegadamente, e em causa, estão declarações feitas pelo ator no passado. Uma petição, em que se pedia ao Festival de Cannes para “não o honrar”, foi mesmo criada pela associação, recolhendo 25 mil assinaturas. Cannes não voltou atrás na homenagem e Thierry Frémeaux denunciou a existência de uma “polícia política” por trás dos protestos, defendendo ainda que o ator “tem o direito de pensar o que quer”. O diretor geral do festival disse ainda que Cannes não estava a dar-lhe “o Prémio Nobel da Paz” e acrescentou que é extremamente complicado avaliar hoje em dia as coisas que aconteceram e se disseram no passado.


Sobre essa controvérsia, Delon comentou, definindo que muitas das acusações que lhe foram feitas baseiam-se em “fabricações e invenções”. “Não sou contra o casamento gay, estou-me a borrifar para isso: as pessoas fazem o que querem. Mas sou contra a adoção por parte de duas pessoas do mesmo sexo … Eu disse que bati numa mulher? Sim. E deveria ter acrescentado que recebi mais estaladas do que as que dei. Na minha vida, nunca assediei uma mulher“. Já sobre a colocação da sua figura à direita política do país, Delon negou, adicionando que colaram-lhe esse rótulo porque “foi amigo do (Jean-Marie) Le Pen desde os tempos do exército“.
Defensor da morte medicamente assistida, Delon tornou pública, em 2022, a sua decisão de recorrer à eutanásia na Suíça, onde vivia, e deixou claro a sua tristeza com o processo de envelhecimento: “Nunca gostei de envelhecer, todas essas dores e desafios que é preciso enfrentar no quotidiano deixam-me imóvel perante tudo”.

