‘Outro País’ leva o 25 de Abril à Cinemateca Brasileira

(Fotos: Divulgação)

Atento (por laços históricos) ao que se passa na “terrinha” (expressão afetiva com que refere à sua antiga metrópole), o Brasil deixa os fantasmas coloniais de lado quando o assunto é o 25 de Abril português, na celebração da Revolução dos Cravos, em 1974. O facto de, na época, ter existido um violento governo militar em voga em terras brasileiras gera uma simpatia de povos sul-americanos pelo processo em que Portugal deu um basta ao ranço ditatorial que vinha desde 1929. Ranço fortalecido com a ascenção de António de Oliveira Salazar (1889-1970), em 1932, como líder populista. A fim de comemorar uma data que é sinónimo de liberdade e abrir um debate sobre governos ditatoriais conectados à língua de Camões, a Cinemateca Brasileira vai exibir nesta terça-feira, às 20h (0h em Lisboa) o documentário “Outro País”, idealizado e rodado no fim dos anos 1990 pelo realizador Sérgio Tréfaut, que conversará com a plateia ao fim da projeção.

Realizador de “A Noiva” (2022) e “Raiva” (2018), Tréfaut trança imagens de arquivo feitas por alguns dos mais importantes artistas visuais, poetas, músicos e cineastas do mundo que se interessaram pelo movimento lusitano de autonomia política. Uma equipa formidável de artistas registaram o que se passava em Portugal na época, mobilizando brasileiros (Chico Buarque, Glauber Rocha, Sebastião Salgado, Lélia Wanick), franceses (Jean Gaumy, Guy Le Querrec, Dominique Issermann, Michel Lequenne e Daniel Edinger), suecos (Pea Holmquist), alemães (Thomas Harlan), norte-americanos (Robert Kramer), cubanos (Santiago Álvarez) e soviéticos (um coletivo de documentaristas).
Na conversa a seguir, Tréfaut leva o C7 por uma viagem a “Outro País” e aos seus próximos feitos.

Que signos de um fascismo ressequido se vão com o 25 de Abril? O que é a figura de Salazar para a sua geração?
Além de Portugal ter sido um país fechado ao mundo por 48 anos de ditadura, marcado por um obscurantismo de Estado, que procurava limitar a instrução da população (os estudos eram considerados perigosos), Portugal foi o último Império colonial europeu que se assumiu como tal. Lutou durante quase 15 anos contra os movimentos de libertação numa sangrenta guerra colonial. O 25 de Abril, movimento de capitães do exército, aconteceu em primeiro lugar para pôr fim à guerra.  A rápida independência de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé foi consequência. Salazar já não governava o país há quase uma década quando aconteceu o 25 de Abril de 74. Tinha caído da cadeira em meados dos anos 1960 e morrera pouco depois. Mas o obscurantismo a que condenou o país e as perseguições políticas que implementou através de uma polícia política (prisões, torturas, assassinatos) se mantiveram no período marcelista (de Marcello Caetano). Infelizmente esses crimes não o fazem ser odiado por toda a população. A propaganda salazarista, de cariz nacionalista e falsificadora da História, foi muito eficiente e tem consequências ainda hoje na forma como em Portugal se fala de Salazar e da ditadura.

Que cinema nasceu em Portugal, a partir de Salazar, e que cinema surgiu em paralelo ou em contramão a ele? O que o cinema português de ontem e de hoje significa para você, como base? Como lar?
Creio que a sua pergunta faz referência a um cinema de comédias do período de Salazar, mas que não teve tanto êxito na época quanto se imagina. São filmes que se tornaram clássicos nacionais mais tarde, com o advento da televisão: «A Canção de Lisboa», «O Costa do Castelo», «O Leão da Estrela».  Nunca tiveram grande reconhecimento internacional. Nos anos 1960, surgiu uma nova geração denominada – tal como no Brasil – o Cinema Novo, encabeçada por Paulo Rocha, António da Cunha Telles, Fernando Lopes, entre outros. O grande advento do Cinema Português para o mundo, como fenómeno de culto em grandes festivais e revistas acontece no final dos anos 1970, com a capacidade de Paulo Branco como produtor ousado e o talento singular dos realizadores Manoel de Oliveira e João Cesar Monteiro. Mais tarde surgiram outros fenómenos de culto internacional, com novas gerações: Pedro Costa, Teresa Villaverde, João Pedro Rodrigues, Miguel Gomes. Embora eu conheça bem todo esse universo, não tenho nada a ver com estes vários tipos de cinema. Em Portugal sou visto como um dos motores de uma geração de documentário nascida no final da década de 1990 e no inicio do século XIX. Isso se dá possivelmente por que realizei «Lisboetas», o primeiro documentário a ser exibido em salas de cinema por vários meses, e com números de espectadores muito superiores aos que conseguiam na época os filmes de ficção independente.  Por outro lado, há o facto de que fui ativista das associações de documentário, cofundador e responsável do Doclisboa, um grande festival de documentário. Acho que sou fruto de um sistema de produção pelo qual lutei e que ainda existe em Portugal, onde a liberdade autoral é indiscutível. Ainda existe um cinema livre, que não segue as regras do mercado, as regras da Netflix e outras. Por isso tem presença tão destacada e premiadas em todos os grandes festivais.

Qual é o maior desafio de encontrar poética numa imagem de arquivo ou de injetar poesia num relato oral sobre um facto como a Rev. Dos Cravos?
«Outro País» é o meu primeiro documentário. Eu vinha do jornalismo. Foi uma prova de fogo. A montagem acabou por ser como uma reunião imaginária de amigos que falavam de um passado extraordinário que tinham vivido juntos, um momento alto das suas vidas. A poesia veio da beleza destas pessoas, desse material de arquivo, da própria realidade.

Que filme português seria o teu filme guia da vida? 
Gosto particularmente da obra de João Cesar Monteiro («A Comédia de Deus» é simplesmente genial), mas não é de perto nem de longe o meu guia de vida. Gosto muito de «Verdes anos» de Paulo Rocha e tenho uma relação forte com varias obras e cineastas, em particular «O Bobo», de José Álvaro Morais, muito importante na minha formação. 

Qual seria o seu farol cinematográfico brasileiro? 
Descobri o cinema brasileiro no exílio e muitos filmes me tocaram muito por razões diferentes: «Deus e o Diabo na Terra do Sol» e tantos Glauber, «Os Cafagestes», «Os Fuzis», «Pixote», «Rio 40 graus», «Rio Zona Norte», «Bye bye Brasil», «Cinema, Aspirinas e Urubus». Até adoro filmes péssimos, como «Quando o Carnaval Chegar», por razões subjectivas (a banda sonora não sai do meu leltor de CDs). Morro de vontade de rever filmes que só vi uma vez, como «Copacabana me engana». Ainda lembro do início e dos diálogos delirantes.

Quais são seus atuais projetos? 
Tenho neste momento vários projetos em andamento. «Incêndio» é um deles. Parte do Incêndio do Museu Nacional em 2018 para falar da relação preocupante do Brasil com o seu património desde o início do século XX. Já «Eldorado» pretende vir a ser um filme sobre as três Guianas, territórios pouco conhecidos, como vitrine exemplar e case-study do que foi e é a história da invasão das Américas, o processo de colonização e pós colonização de territórios ocupados. «El Rio» (título provisório) é um filme que parte da figura emblemática de Simón Bolívar à luz da visão de García Marquez («El General en su labirinto») para falar da permanente reescrita e reinterpretação da história. Também é um filme muito pessoal, uma carta ao meu pai sobre as leituras da história. Além disso, estou a começar a escrever uma ficção relacionada com o Brasil de hoje.

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