Morreu esta quarta-feira, 23 de novembro, o produtor e realizador António da Cunha Telles, nome indissociável do Cinema Novo português na década de 1960.
Nascido a 26 de fevereiro de 1935, António Alexandre Cohen da Cunha Teles estudou medicina antes de se dedicar ao cinema. Foi em Paris, no IDHEC (atual La Fèmis) que em 1961 se diplomou, regressando posteriormente a Portugal, onde tentou arranjar trabalho como assistente de realização junto de figuras ligadas ao meio cinematográfico, mas foi sempre recusado. Foi aí que decidiu enveredar pelo ensino de cinema, promovendo cursos em Portugal ligados à Sétima Arte, que serviram de base para formar muitos técnicos (como Fernando Matos Silva, Elso Roque ou Acácio de Almeida) que viriam a trabalhar no que se chamaria o Cinema Novo português.
Nessa década, aproveitando o dinheiro de uma herança que recebeu, produziu e coproduziu obras como “Os Verdes anos” (1963), de Paulo Rocha, “Les vacances portugaises“, de Pierre Kast, “La peau douce“, de François Truffaut, “Belarmino” (1964), de Fernando Lopes, e “Domingo à Tarde“, de António de Macedo.
Como realizador, fica na memória “O Cerco”, em 1970, sobre o qual disse: “O sucesso comercial
de O Cerco advém do facto de ele ser um filme intrinsecamente português. As pessoas vão vê-lo porque fala de assuntos que lhes dizem respeito e sentem-se refletir”.
No seu currículo de realizador encontramos ainda “Meus Amigos” (1974), “As Armas e o Povo” (1975) e “Kiss Me” (2004). “Tudo o que se fez em Portugal [em termos de cinema] deve-se a este senhor. E também a muito do que não se fez, pois não o deixaram fazer, como produtor, realizador, homem de ideias, inclusivamente à frente do ICA – foi o melhor diretor do IPC (Instituto Português do Cinema)“, disse António-Pedro Vasconcelos em 2019 sobre António da Cunha Telles, aquando da homenagem que a Academia de Cinema Portuguesa lhe dedicou: “Gostaria de dedicar este prémio a um grande senhor sem o qual o Cinema Português nunca tinha existido, e que está por trás de tudo o que se fez em Portugal e de tudo o que não se fez, mas que tentou fazer. Um grande senhor chamado António da Cunha Teles. (..) Há 12 ou 13 anos que não o deixam filmar. Revolta-me. Não posso fazer nada a não ser dar-lhe o meu apoio, mas revolta-me. “Tal como me revolta que os mais jovens, os mais talentosos não conseguem filmar.”
António da Cunha Telles deixa por estrear (e ainda finalizar) “Cherchez la femme”, aquele que acaba por ser o seu último projeto.


