Numa entrevista à Télérama, as atrizes iranianas Zar Amir Ebrahimi e Golshifteh Farahani criticaram duramente o cineasta Asghar Farhadi, não só por alegadamente ele “ficar em silêncio, enquanto as pessoas arriscam as suas vidas nas ruas” no Irão, mas igualmente pela acusação de plágio em que o realizador de “Um Herói” se viu envolvido, com uma aluna de um workshop que ele realizou no passado.
Novamente à Télérama, Farhadi respondeu às críticas, alegando falsidades por parte das atrizes. “O que Zar Amir Ebrahimi diz é completamente falso. Basta fazer uma pesquisa no Google e verificar a minha conta no Instagram para ver tudo o que postei sobre a situação no Irão. Há quase um ano, publiquei o texto mais frontal que um artista iraniano escreveu contra o poder, intitulado “Eu te odeio“”, disse o cineasta, apontando mais exemplos da sua intervenção: “Antes mesmo de sabermos da morte de Mahsa Amini, publiquei um texto de protesto no Instagram. Nove dias depois, ainda no Irão, gravei um vídeo em inglês, convocando ativistas de direitos humanos e intelectuais de todo o mundo a se posicionarem em favor dos manifestantes. Publiquei então o texto de apoio aos manifestantes, que o júri do festival de Zurique, do qual fui presidente, leu durante a cerimónia de encerramento. Quando recebi o Prémio Werner-Herzog em Munique, dediquei esse prémio ao povo iraniano e às pessoas que saíram às ruas para tomar seu próprio destino em suas próprias mãos, arriscando a vida. Zar Amir Ebrahimi devia estar ciente de todas as minhas posições. E devia saber que os media próximos do poder atacaram-me quando ela recebeu o prémio de interpretação em Cannes – prémio para o qual contribuí.”

Quanto às palavras de Golshifteh Farahani, que disse mesmo que França devia parar de “idealizar um homem que abusa do seu poder há muito tempo“, Farhadi falou de várias atitudes erradas da atriz quando desenvolveu “About Elly” e “Uma Separação”, repetindo mais uma vez a sua visão sobre o tema: “Há oito anos, conduzi um workshop durante a qual uma aluna fez um documentário. Este documentário, como o meu filme de ficção, é baseado numa história real que aconteceu dois anos antes e foi mencionada em muitos meios de comunicação. Quando uma notícia é publicada, ela entra em domínio público. Um terceiro autor poderia escrever uma peça baseada nos mesmos factos, ninguém poderia acusá-lo de plágio. Além disso, sugeri a ideia do culto ao herói, e o enredo de um homem erguido como herói (…) até forneci recortes de imprensa para alguns desses alunos. (…) Ao contrário do que diz a Golshifteh Farahani, eu não “menti” e não “ameacei” esta aluna: ela concordou em assinar um documento especificando que a ideia de “Um Herói” era minha. (…) As acusações dessa aluna, retransmitidas pelos seus familiares, começaram no mesmo dia da apresentação de “Um Herói” em competição em Cannes, em julho de 2021. Procurei primeiro resolver esse conflito amigavelmente: ofereci-me para agradecer nos créditos finais, mas ela exigia que todas as receitas do filme fossem divididas com ela, e que queria que na abertura de “Um Herói” estivesse escrito que era baseado no seu documentário – o meu produtor, Alexandre Mallet-Guy, garantiu-me que não havia base legal para essa exigência.”
Preparado para filmar um novo projeto, nos EUA, o cineasta avisa que gostaria de regressar ao Irão a curto-prazo, mas que isso é impossível: “O meu desejo é voltar, a minha família está lá e amo o meu país. Sabendo que o meu nome está agora na lista de cineastas proibidos de deixar o território: assim que voltar a Teerão, o meu passaporte seria confiscado. Essa não é a única restrição que me atinge: antes do início das manifestações, fui colocado na lista de cineastas proibidos de trabalhar. E não me disseram porquê…“

