A documentarista Laura Poitras, criticou os festivais de Veneza e Toronto (TIFF) por “envolverem-se numa espécie de branqueamento” ao programar documentários favoráveis à família Clinton.
Hillary e Chelsea Clinton fizeram aparições em Veneza e Toronto em apoio à sua próxima série documental que vai estrear na Apple, “Gutsy”, e ao documentário de Tamana Ayazi e Marcel Mettelsiefen, “In Her Hands”, que os Clintons produziram.
Responsável por trabalhos como o vencedor do Oscar “Citizenfour” e “All the Beauty and the Bloodshed”, galardoado este fim de semana com o Leão de Ouro em Veneza, Poitras diz que ponderou muito em falar sobre o assunto, mas finalmente decidiu fazê-lo [depois de Veneza terminar] pois os “jornalistas precisam fazer perguntas difíceis”. “Não há nada mais sério que ameace a Primeira Emenda, não apenas [na América], mas também ameace o jornalismo globalmente”, do que a acusação de Julian Assange, que enfrenta a extradição para os EUA, onde foi acusado sob a Lei de Espionagem pelo seu papel na publicação de revelações sobre crimes de guerra dos EUA no Afeganistão e no Iraque.
“Hillary Clinton esteve ativamente envolvida nas guerras e ocupações no Iraque e no Afeganistão”, disse Poitras em Toronto. “Ela apoiou a ida de tropas. Acho realmente preocupante que tudo isso seja esquecido e estejamos a fornecer uma plataforma”para o “branqueamento” da História.“O esforço do governo dos EUA para indiciar e processar Julian Assange é, eu diria, não muito diferente do de prender Jafar Pahani”, disse a documentarista em referência à presença de “No Bears”, o último filme do cineasta iraniano, em Veneza e Toronto.
“Documentário é jornalismo”, acrescentou. “As perguntas difíceis devem ser feitas. Defendemos os factos e responsabilizamos as pessoas. E não entendo por que não há mais questionamento? Realmente temos que ver o que isso significa para o estado do documentário.”
Curiosamente, estas declarações também chegam após as queixas de alguns jornalistas internacionais em Toronto, pois para participar nas conferências de imprensa do certame teriam de submeter as questões previamente, para que existisse moderação por parte da organização.

