Morreu o ator e realizador Sidney Poitier (1927-2022)

(Fotos: Divulgação)

Morreu aos 94 anos Sidney Poitier, avança o jornal The Mirror. O ator, ativista e realizador tornou-se o primeiro negro a receber o prémio de Melhor Ator nos Oscars, em 1964, por “Lilies of the Field” (Os Lírios do Campo).

Ao longo da sua ilustre carreira no cinema, iniciada no final da década de 1940, Poitier foi nomeado a mais dois Oscars, 10 Globos de Ouro e seis BAFTAs. Na memória coletiva relembra-se a sua participação em filmes como “Sementes de Violência” (1955), “O Ódio Que Gerou o Amor” (1967), “No Calor da Noite” (1967) e “Adivinha Quem Vem Jantar” (1967).

Natural das Bahamas, embora tenha nascido dois meses prematuramente em Miami, durante uma visita dos pais ao local para vender tomates (ambos eram agricultores), Poitier cresceu na pobreza e teve pouca educação formal. De modo a evitar a delinquência, que fustigava a sua geração nas Bahamas, foi enviado aos 15 anos para Miami para morar com o irmão, mas aí viveu o abismo racial que dividia o país. Aos 18 anos partiu para Nova Iorque, onde chegou a pernoitar em terminais de autocarros. Foi mais ou menos por essa altura que decidiu fazer uma audição no American Negro Theatre. Foi rejeitado, mas tentaria novamente após um treino intenso para superar o sotaque e melhorar as suas habilidades performáticas. Finalmente aceite, conseguiu um pequeno papel na produção da Broadway de “Lysistrata“, pela qual recebeu boas críticas, saltando para o cinema com o filme “Falsa Acusação” (1950). Nele interpretava um médico designado para tratar dois suspeitos racistas brancos que são irmãos. Na verdade, para conseguir esse papel, Poitier mentiu ao realizador, Joseph L. Mankiewicz, afirmando que tinha 27 anos, quando na verdade tinha 22.

Apesar de bem sucedido nesse filme, os papéis oferecidos nos anos que se seguiram eram normalmente menos interessantes e proeminentes do que aqueles que os atores brancos conseguiam. Ainda assim, deu nas vistas em “Sementes de Violência“, mas só depois de recusar vários projetos, que considerou degradantes, conseguiu papéis que o catapultaram para uma posição raramente ou nunca alcançada por um afroamericano da época. Foi o que aconteceu em “Os Audaciosos” (1958), que lhe valeu a primeira nomeação ao Oscar de Melhor Ator.

Cinco anos depois, ganhou mesmo a estatueta por “Os Lírios do Campo” (1963), conseguido posteriormente destaque em produções como “Gigantes do Mar” (1964), “A Maior História de Todos os Tempos” (1965) e “Desafiando o Perigo” (1965), o seu primeiro filme onde o tema da raça não era o principal.

Muito ativo na defesa dos direitos civis, os seus papéis em “Adivinha Quem Vem Jantar” (1967), como o namorado de uma jovem branca que o vai apresentar aos pais liberais, e “O Ódio Que Gerou o Amor” (1967), onde era um professor, foram marcos para ajudar a quebrar algumas barreiras sociais entre negros e brancos.

O mesmo aconteceu em “No Calor da Noite“, onde desempenhava o papel de Virgil Tibbs, um detetive de Filadélfia enviado para uma terriola do Mississipi, onde não só tinha de lidar com racismo sistémico da população, como igualmente das forças da lei. A sua personagem agradou tanto que surgiria em dois novos filmes_ “Chamam-me Mr. Tibbs” (1970) e “A Organização” (1971).

É nessa altura que, mantendo sempre a sua carreira de ator, avança – sob conselho daquela que se tornaria sua esposa, Joanna Shimkus – na realização para o cinema, estreando-se com “Direito por Linhas Tortas” (1971), um western. Seguiram-se mais 8 filmes, o último dos quais lançado em 1990, “O Papá Fantasma“.

Pelo caminho, conseguiu alguns resultados estrondosos nas bilheteiras, como “Dois Amigos em Apuros” (1980), que foi durante 20 anos, até à chegada de “Scary Movie – Um Susto de Filme” (2000), a fita realizada por um negro com maior performance no box-office norte-americano.

Afastado da interpretação desde 2001, altura em que surgiu no telefilme “The Last Brickmaker in America“, Poitier continuou ativo nas mais diversas atividades, sendo mesmo integrante de 1995 a 2003 do conselho directivo da Disney. Em abril de 1997, foi nomeado embaixador das Bahamas no Japão, cargo que ocupou até 2007. De 2002 a 2007, ele foi simultaneamente embaixador das Bahamas na UNESCO.

Em 2002, recebeu o Oscar Honorário pela sua contribuição geral ao cinema americano. Nessa cerimonia, mais tarde, Denzel Washington ganhou o prémio de Melhor Ator por “Dia de Treino“, tornando-se o segundo ator negro a ganhar a distinção. No seu discurso de vitória, Washington saudou Poitier: “Sempre estarei a persegui-lo, Sidney. Sempre estarei a seguir os seus passos. Não há nada que prefira fazer, senhor.”

Últimas