O japonês Ryusuke Hamaguchi e o seu filme, “Drive My Car”, foram os grandes vencedores dos Asia Pacific Screen Awards (APSA). Estreado em Cannes, o filme foi considerado o melhor do evento que este ano decorreu em Queensland, Austrália, tendo Hamaguchi e Oe Takamasa sido ainda consagrados pelo argumento.
Adaptado de um conto de Haruki Murakami, “Drive My Car” segue dois solitários – um reconhecido ator e director de teatro e uma motorista que o vai guiar durante um festival – que encontram coragem para enfrentar o passado. “O que é interessante no storytelling de Murakami é que ele tem o poder nos fazer folhear as páginas com facilidade. O texto flui e segues na corrente. Em outras novelas, os autores habitualmente pedem ao leitor para imaginar muitas coisas, mas nas histórias do Murakami nem precisamos fazer isso, pois ele é tão bom que nem precisamos ter imaginação. Ele trata de tudo. Além disso, existe sempre um pequeno mistério ou situação instável nessas histórias, levando o leitor a querer saber como isso será resolvido e a situação estabilizada. Para mim é uma técnica de storytelling muito interessante“, disse o cineasta japonês ao C7nema no último Festival de Cannes.
Na 14ª cerimónia APSA, o Grande Prémio do Júri foi atribuído ex aequo ao filme do Banglaldesh “Rehana” (também conhecido como “Rehana Maryam Noor“) e ao australiano “The Drover’s Wife The Legend of Molly Johnson”. O primeiro viu ainda a atriz Azmeri Haque Badhon receber um prémio pela sua interpretação como uma professora que terá de lutar contra o sistema depois de ser testemunha de um incidente na escola. “A Azmeri dedicou-se a 100% a este trabalho e pôs toda a sua vida de lado para isso”, explicou-nos o realizador Abdullah Mohammad Saad em Cannes. “Sinto que isto podia acontecer a qualquer mulher, em qualquer parte do mundo. O mais importante era ver a protagonista a se transformar de testemunha em perpetradora e depois em vítima. Estas são as três perspetivas de um ato: podes ser testemunha, a vítima ou o responsável pela ação condenável. Eu coloco a protagonista nestas três situações, e examino essa transformação.”
Nas interpretações masculinas, o prémio foi para Merab Ninidze por “House Arrest” (“Delo”), filme onde desempenha o papel de um homem que depois de acusar de corrupção uma figura do poder autárquico é condenado a prisão domiciliária. “Todos os dias abrimos os jornais e vemos uma investigação qualquer anticorrupção. Que este presidente da câmara foi preso ou está sob investigação, etc. A corrupção não é um tópico proibido na Rússia. É algo que existe e é discutido em larga escala. A corrupção sempre existiu e sempre vai existir na Rússia. Acho que está na mentalidade do regime. Mas a corrupção existe em todo o lado, não é só um problema russo,” explicou o realizador Aleksey German Jr. ao C7nema em entrevista.
Com mais uma história sobre dilemas morais, Asghar Farhadi conquistou o prémio de melhor realização por “A Hero“, filme onde seguimos um condenado que, durante uma saída precária da cadeia, descobre uma mala cheia de moedas de ouro. Quando decide devolver a mala ao dono, é instantaneamente transformado num herói local, despoletando a atenção da imprensa e das redes sociais, mas também do homem a quem pediu dinheiro emprestado no passado e a quem nunca pagou, o que o levaria a ser detido e encarcerado. “É inevitável a imprensa dar destaque a estes ‘heróis’. A imprensa procura sempre estas peças quentes sustentadas pelas emoções, que atraem muitos espectadores. ”, disse Farhadi ao C7nema em Cannes. “ A ideia neste ‘A Hero‘ era mostrar que na verdade não existem heróis e não devemos esperar que as pessoas sejam perfeitas em todos os aspectos das suas vidas, isto depois de serem amadas e consagradas por uma atitude isolada que tiveram no seu dia a dia.”
Outro premiado do evento, duplamente, foi o filme vietnamita “Taste”, que levou para casa a distinção de melhor direção de fotografia e o Prémio Cinema Jovem.
Vencedores
Melhor Filme – “Drive My Car” Dir. Hamaguchi Ryusuke
Grande Prémio do Júri: Abdullah Mohammad Saad por “Rehana” (aka “Rehana Maryam Noor”) e Leah Purcell por “The Drover’s Wife The Legend of Molly Johnson”
Filme Jovem – “Moving On” (aka “Nam-mae-wui Yeo-reum-bam”) de Yoon Dan-bi
Filme de Animação: “The Nose or The Conspiracy of Mavericks” (aka “Nos ili zagovor netakikh”) de Andrey Khrzhanovsky
Melhor Documentário – “Sabaya” de Hogir Hirori.
Realização – Asghar Farhadi por “A Hero” (aka “Ghahreman”)
Argumento: Ryusuke Hamaguchi, Oe Takamasa por “Drive My Car”
Direção de Fotografia: Nguyen Vinh Phuc por “Taste” (aka “Vi”)
Atriz – Azmeri Haque Badhoun em “Rehana” (aka “Rehana Maryam Noor”)
Ator – Merab Ninidze em “House Arrest” (aka “Delo”)
Prémio de Diversidade Cultural sob o patrocínio da UNESCO – “Children of the Sun” (aka “Gaadi”) de Prasanna Vithanage
Prémio Cinema Jovem em Parceria com NETPAC e GFS – Le Bao por “Taste” (aka “Vi”)
Prémio FIAPF – Sergey Selyanov
Destinatários do MPA APSA Academy Film Fund: Apichatpong Weerasethakul (como produtor) de “9 Temples to Heaven”; Gutierrez Mangansakan II (argumentista e realizador) de “The Spellcaster of Tamontaca”; Rakhshan Bani-Etemad (argumentista, produtor e realizador) de “Red Mist Descending”; e Dea Kulumbegashvili (argumentista e realizadora) de “Historia” (Georgia).



