Quando falámos com Abdullah Mohammad Saad durante o Festival de Cannes, ele ainda não sabia bem como gerir a emoção do seu filme, “Rehana”, estar na competição Un Certain Regard. E a razão não era para menos. Abdullah tornou-se o primeiro cineasta do Bangladesh com um filme na Seleção Oficial no mais famoso festival de cinema do mundo. “Toda a gente do meu país está feliz, há anos que tentávamos ter um filme aqui. Ainda por cima comemoramos os 50 anos da nossa independência [1971], por isso estamos muito orgulhosos. Todos nós, o filme já é de todos”.
Agora, a fita e o realizador colhem os frutos do impulso que Cannes lhes trouxe: a presença no circuito de festivais internacionais de cinema, com Mannheim Heidelberg a ser mais um dos pontos de passagem de uma tournée que se prevê longa.
Em “Rehana” acompanhamos a personagem-título, Rehana Maryam Noor, uma professora da faculdade de medicina que testemunha um infeliz incidente no seu local de trabalho. Esse evento não é o único que se atravessa no seu caminho durante um dia, mas vai colocar a sua inabalável rigidez moral à prova, começando aqui uma verdadeira luta contra o sistema. “É uma história pessoal, mas creio que tem um apelo universal”, disse-nos Abdullah. “Sinto que isto podia acontecer a qualquer mulher, em qualquer parte do mundo. O mais importante era ver a protagonista a se transformar de testemunha em perpetradora e depois em vítima. Estas são as três perspetivas de um ato: podes ser testemunha, a vítima ou o responsável pela ação condenável. Eu coloco a protagonista nestas três situações, e examino essa transformação.”

Azmeri Haque Badhon e Abdullah Mohammad Saad em Cannes
Um dos elementos mais distintivos do filme é a permanente abordagem realista com a utilização de uma palete de cores gélidas que criam uma certa distancia, com um filtro “azul” a acompanhar permanentemente todos os eventos. Abdullah explicou-nos essa opção: “É uma questão difícil de responder, pois é algo que se sente mais e não tanto se explica. Essencialmente queria capturar a turbulência interna que acompanha a protagonista. Não queria mostrar o seu passado, as suas motivações, usando flashbacks. Mas pretendia mostrar a dor e pressão que existem permanentemente nela. Aquelas coisas que a reprimem e se acomodam em si durante muitos anos. O filme, quando começa, ela está na casa dos 30 anos e já passou por muito. Senti que a palete de cores era apropriada para transmitir o seu sofrimento interno e uma sensação de enorme claustrofobia. Aquele sentimento de solidão, de ser uma pessoa contra o mundo. Aquela sensação de impotência (…) Um dos meus objetivos era também lançar questões sobre coisas que normalmente não costumamos falar. Para mim era extremamente importante examinar a Rehana inserida neste mundo. O que ela passou e o que tem de encarar no futuro. E faço isso através de vários contextos, sejam sociais, políticos ou familiares. A Rehana é importante para mim como ser humano. Gosto de explorar a condição humana. Não sou alguém que deseja passar uma mensagem forte ou guiar o espectador sobre o que a sociedade deve ser. Não tenho as respostas, por isso não as dou. Prefiro lançarquestões.””.
No papel principal encontramos Azmeri Haque Badhon, com quem o cineasta ensaiou durante 9 meses para a preparar para os desafios da sua personagem. “Foi um processo muito longo, mas a Azmeri dedicou-se a 100% a este trabalho comigo e pôs toda a sua vida de lado para isso. Ela trabalhou muito para se enfiar na cabeça dessa personagem e também me ajudou na última versão do guião. Ela mesmo se identificou com a Rehana. A chave de tudo foi isso, e a Azmeri confiou muito em mim. Experimentei muito, fizemos muitos takes de tudo. 25-30 às vezes. Ela sempre se mostrou aberta a essas exigências. Estou muito agradecida a ela.”
Além do sucesso no circuito dos festivais, “Rehana” é o candidato do Bangladesh ao Oscar de Melhor Filme Internacional.

