A curta-metragem Fun With Father (1984) habilitou o animador Christopher Michael Sanders a uma carreira criativa plural na indústria de Hollywood, tanto na concepção de guiões quanto no design das personagens. A sua versatilidade conduziu-o a uma trajetória bem-sucedida como realizador, com três nomeações aos Oscars no currículo, por “The Croods” (2013), “How To Train Your Dragon” (2010) e o libertário “Lilo & Stitch” (2002). A sua inclusão na mostra Perlak do Festival de San Sebastián, com “The Wild Robot” (Robot Selvagem), simboliza uma consagração merecida da sua artesania, expressa num depurado cuidado com as cores. É pena que seja o seu exercício menos pessoal Aliás, avaliando-se o histórico animado do estúdio DreamWorks, que nos deu picardias como “Shrek” (2001) e Bee Movie(2007), esta aventura ecológica parece um retrocesso simbólico. Soa como um gesto de “quero ser Disney”, uma vez que a dramaturgia segue a postura moralista (de verve psicanalítica) do estúdio do Rato Mickey.

Eficiência técnica não lhe falta, sobretudo na montagem, capaz de acelerar na medida certa as situações de risco enfrentada pelas personagens. Na direção de arte regista-se outra destreza, visto que os croquis se impõem pelo requinte plástico na engenharia da computação gráfica. Carisma também não é o problema, ao se destacar a contradição ética da personagem secundária principal, a raposa Fink (Astuto, em português), que conta com a voz (e o trejeito) de Pedro Pascal. O que lhe pesa mais negativamente é a carência indisfarçável de ousadia, não apenas na tessitura da heroína (e dos seus satélites) como, sobretudo, na discussão da maternidade e da solidão. É impossível desligar-se da alusão a(o seminal) WALL-E (2008) gerada a cada segundo, a cada frame. Parece um “WALL-Egenérico, sem a profundidade existencialista do sci-fi de Andrew Staton, que soava inusitada para o padrão Disney.

Percorrendo as trilhas do bom rapaz similares à cartilha Pixar, que parece escolher psicólogos como roteiristas, “The Wild Robotprocura fidelidade à literatura de Peter Brown, da qual se deriva, numa tentativa de construir uma história épica da maternidade – sem deixar a preocupação ambiental de lado. A trama desenrola-se num futuro de distopia asséptica, na qual as máquinas são operárias, a trabalhar em prol da corporação Universal Dynamics. Um desses construtos, a unidade ROZZUM 7134, denominada Roz, está encalhada num mundo silvestre, sem conseguir contato com a matriz, a fim de ser resgatada. Para resistir numa natureza biológica de fauna diversa, essa androide (encarnado com delicadeza por Lupita Nyong’o) tenta aprender o som (ludicamente traduzido como fala) dos animais. Após destruir acidentalmente um ninho de gansos, ela percebe que um ovo sobrou e dele sai uma pequena ave, Brightbill (ou Bico-Vivo). Sem entender bem uma falha no seu sistema, que a leva a ser responsável pelo bicho, Roz passa a tomar conta dele, salvando-o de predadores, entre os quais Astuto-Fink, que acaba por se converter numa espécie de tio.

A presença da criança e a sua conversão em adolescente transforma Roz nos seus transistores, atenuando o seu cartesianismo pautado por algoritmos. Os códigos binários da sua programação dão lugar a um padrão de benquerer que ela não sabe definir, mas que se amplia quando o seu rebento precisa entrar em fluxo migratório. Não restam dúvidas de que, nesse momento de ninho vazio, sinais de comando da Universal Dynamics vão aparecer, desequilibrando (na rota da obviedade) o ecossistema sentimental da mãe cibernética do protagonista.

O que vem daí para frente é uma luta pela sobrevivência, contagiante num primeiro momento, mas carente de surpresas. Sanders conduz o enredo com eficácia, mas sem a margem de transgressão de seu passado.


Obs.: No Brasil, onde a longa-metragem já estreou, destaca-se a impecável escolha de Rodrigo Lombardi para a voz de Fink-Astuto, e a fina atuação de Gabriel Leone na dobragem de Bico-Vivo.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
the-wild-robot-peca-ao-seguir-o-algoritmo-do-quero-ser-disneySoa como um gesto de “quero ser Disney”, uma vez que a dramaturgia segue a postura moralista (de verve psicanalítica) do estúdio do Rato Mickey.