Baseado no sétimo capítulo do romance “Drácula“, intitulado “The Captain’s Log”,  “Last Voyage of the Demeter” (Drácula: O Despertar do Mal) não tem medo em jorrar sangue ou fazer o espectador sugestivamente sentir o cheiro a carne queimada, mas – como tantos outros – derradeiramente acaba por ser um objeto passageiro de consumo rápido que se perde dentro do já saturado mercado de filmes dedicados à famosa personagem criada por Bram Stoker, já lá vão quase 130 anos.

Nem tudo é mau, ou redundante neste “Last Voyage of the Demeter”, e a atmosfera umbrosa, que faz lembrar a dos filmes da Hammer, bem acompanhada por uma direção de fotografia de Roman Osin e Tom Stern, com piscares de olho ao tom gótico da geração videoclipe e à pintura de J.M.W. Turner e  George Philip Reinagle (sem esquecer quem o influenciou: Ludolf Backhuysen e Willem van de Velde), dão ao espectador uma sensação permanente de arrepio. 

Pena é que, quando chega o momento dos “jumpscares” e da ação horrorífica propriamente dita, tudo soe demasiado artificial e pouco assustador, restando apenas em nós a empatia criada com alguns dos membros da tripulação do navio mercante Demeter, fretado para transportar cargas particulares de um porto no Mar Negro para Londres, estando nesses itens caixas que vão revelar uma clandestina romena semimorta (Aisling Franciosi) e uma presença vampírica.

Talvez o elo mais forte de toda esta transposição para o cinema (atualizada com pequenos detalhes de discussão contemporânea, como o racismo) seja mesmo a personagem de Clemens (Corey Hawkins, em boa atuação), um homem da ciência britânico que quer se juntar à tripulação do Demeter, e que contrasta com a rudeza da “escola da vida” (ou “escola do mar”) de todos os que por lá estão. É dele que vêm as tentativas de explicar tudo o que se passa no navio com base na ciência, colidindo frequentemente com as pessoas que o rodeiam, tão rugosos e cínicos como as suas mãos calejadas que o mar moldou.

Habituado a lidar com criaturas míticas assustadoras, como se viu em “Scary Stories to Tell in the Dark” e “ O Caçador de Trolls”, André Ovredal joga bem – e mais uma vez – com a claustrofobia de um espaço encerrado e do qual não se consegue escapar, pois afinal passamos a maioria do tempo em alto mar. É nesse confinamento que ele obriga as suas personagens – que incluem o capitão Eliot (Liam Cunningham); o primeiro imediato, Wojchek (David Dastmalchian); e o neto do capitão, Toby (Woody Norman) – a terem de enfrentar o terror que os ameaça à noite. No fundo, o cineasta norueguês faz do Demeter a morgue daquele que é o seu maior sucesso até agora, “The Autopsy of Jane Doe”, um local de natureza macabra, psicologicamente frio, onde pernoitam os mortos e se aterrorizam os vivos. Contudo, e dada a natureza derivativa do seu material, o resultado fica longe do memorável.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
dracula-o-despertar-do-mal-salva-se-a-beleza-esteticaAndré Ovredal faz do Demeter a morgue daquele que é o seu maior sucesso até agora, “The Autopsy of Jane Doe”, um local de natureza macabra, psicologicamente frio, onde pernoitam os mortos e se aterrorizam os vivos.