“É mais fácil agir como gado”, alerta Cristian Mungiu em “Fjord”

(Fotos: Divulgação)

Único romeno a conquistar uma Palma de Ouro em quase oito décadas de festival, Cristian Mungiu volta a Festival de Cannes, na competição oficial, para celebrar o papel do jornalismo como instância dialética numa sociedade onde parece “mais fácil agir como gado e seguir o que a manada manda”. Foi essa a reflexão que o cineasta defendeu ao longo da conferência de imprensa de Fjord, baseado em reportagens sobre a atuação de conselhos tutelares em famílias de imigrantes.

“A vida é ambígua. Não acredito em filmes que apenas confirmam o que já sabemos. Filmo para provocar ideias e uso dados e documentos na base do argumento”, disse Mungiu, rodeado pela atriz Renate Reinsve e pelo ator Sebastian Stan, em excelente forma. “Gosto de trabalhar sobre histórias reais, pois mostram o que importa na vida social hoje, quando muitos preferem agir como ovelhas no rebanho e aceitar o que a moda impõe”.

Há 19 anos, o realizador foi distinguido com a Palma de Ouro por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007), iniciando um percurso de forte ligação à Croisette. “Trabalho sempre com as mesmas pessoas, pois valorizo o espírito de equipa. No caso do meu diretor de fotografia, Vladimir Panduru, pesquisamos locais juntos e criamos em duo uma coreografia de planos longos para o elenco”, explicou ao C7. “Para nossa sorte, a Noruega, onde filmámos, oferece uma paisagem de luz singular”.

Fjord

Em Fjord, Mungiu desloca o seu olhar clínico para uma remota comunidade norueguesa, onde Mihai Gheorghiu (Stan) e Lisbet Gheorghiu (Reinsve), um casal profundamente religioso, tentam reconstruir a vida com os cinco filhos. Vindos da Roménia para a terra natal de Lisbet, os Gheorghiu estabelecem rapidamente ligações com os vizinhos Halberg, entre eles Mats (Markus Tønseth) e Mia (Lisa Carlehed), figuras centrais da comunidade.

A aparente harmonia desfaz-se quando Elia (Vanessa Ceban), a filha mais velha, surge na escola com marcas suspeitas no corpo, despertando inquietação entre professores, assistentes sociais e autoridades. “Há um ponto sobre discriminação no filme, quando todos somos julgados”, afirmou Stan.

Segue-se uma investigação delicada que confronta diferentes conceções de educação, fé, liberdade e responsabilidade coletiva. Enquanto Mihai enfrenta um sistema que considera hostil às suas crenças, Lisbet divide-se entre proteger a família e lidar com o crescente isolamento social.

Com a sua habitual sobriedade formal, Mungiu constrói um drama austero e emocionalmente ambíguo, onde cada gesto, silêncio ou julgamento carrega tensão latente. “Sou uma atriz que se deixa guiar pelo processo dos realizadores e, aqui, Mungiu ofereceu-me uma figura complexa”, disse Reinsve.

Mais do que um retrato sobre abuso ou intolerância, Fjord torna-se uma reflexão inquietante sobre preconceito, integração cultural e os limites entre convicção moral e intervenção do Estado. “Estamos a normalizar as diferenças hoje”, alertou Stan.

O Festival de Cannes termina a 23 de maio.

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