Atento às formas subtis de coerção do Estado e da sociedade que frequentemente esmagam as suas personagens, como se viu em The Alien, No End e The Witness, Nader Saeivar regressou ao cinema com Hijamat, a sua quarta longa-metragem, apresentada na competição pelo Globo de Cristal.
Desta vez, o cineasta iraniano já não usa o Irão como espaço físico para a coerção, mas o islamismo como herança mental, religiosa e afetiva, transportada agora para Berlim e para uma comunidade da diáspora turca, onde a suposta maior liberdade europeia não chega para desfazer o peso da tradição.
Produzido e montado por Jafar Panahi, colaborador próximo de Saeivar há cerca de uma década, Hijamat acompanha dois irmãos presos a vidas que não escolheram. De um lado temos o mais novo, Kerem (Jael Cem Ilhan), obrigado a esconder a sua homossexualidade; do outro encontramos Murat (Kida Khodr Ramadan), que carrega o peso de uma vida inteira vivida em silêncio, dentro de um casamento onde a intimidade foi substituída pela sobrevivência social. Sobre eles, encontramos um pai incapaz de confrontar o imã em quem acredita cegamente, enquanto, ao lado, Leyla (Nicolette Krebitz) encontra no YouTube uma forma de expressão que a família e a comunidade lhe negam.
O mais interessante em Hijamat é a forma como Saeivar evita reduzir a narrativa à homossexualidade e à sua exposição. Curiosamente, as palavras “gay” ou “homossexual” nunca são pronunciadas, porque o que está em causa é o olhar atento à vida dupla que todas as personagens em cena têm de viver para satisfazerem desejos e ambições que vão contra aquilo que a sociedade e a religião lhes impõem. Nesse sentido, a figura do imã é central nesse sistema, não apenas como autoridade espiritual, mas como inequívoco nó entre religião, negócio e poder, entrando pelas famílias e pelos indivíduos, manipulando-os.
Contido, duro e profundamente desencantado, aquele que o cineasta diz ser o seu filme mais pessoal confirma-o como um observador atento das consciências condicionadas pelo medo e pela fé, mas nem tudo funciona bem, particularmente quando o olhar sai da família e para na vizinhança. Se as tensões familiares se sentem orgânicas, já as personagens alemãs — uma mulher paranoica com os serviços secretos da RDA, interpretada por Nastassja Kinski, e uma figura de deriva esotérica vivida por Moritz Bleibtreu — parecem sempre elementos estranhos à narrativa, não apenas por assentarem em clichés estereotipados, mas também pela forma como o filme tenta, sobretudo no caso da personagem de Kinski, colá-las à história central, como se quisesse mostrar que os resultados da pressão extrema da sociedade sobre os indivíduos podem levar a comportamentos psicóticos. No caso de Moritz Bleibtreu, ele surge como um xamã New Age que promete curar as varizes do protagonista através da técnica das ventosas. É daí que vem o nome Hijamat, e não encontramos mais nenhuma razão para o famoso ator de A Experiência e Corre, Lola, Corre estar em cena além disso.
Estes tropeções não apagam, de todo, os méritos do filme, bem assente num sólido núcleo familiar e nas prestações de Kida Khodr Ramadan, Jael Cem Ilhan, Nicolette Krebitz e Vedat Erincin. Todos eles conferem densidade às suas personagens, mas é curioso que acabe por ser Nicolette Krebitz a roubar as cenas a quem quer que esteja com ela, particularmente numa cena em que explica a Kerem por que razão entende perfeitamente o que ele sente.
No final, e apesar das boas intenções e de momentos bem conseguidos na investigação de como a fé esmaga os indivíduos, Hijamat é um filme bem mais imperfeito do que devia, com consequências óbvias para o seu ritmo e profundidade.






















