Frequentemente entregue a dilemas e a personagens repletas de ambivalências, numa eterna demonstração da confrontação entre o bem e o mal, numa sociedade opressora que condiciona em muito as ações individuais, o dramas iranianos oferecem – sempre – afiados comentários sociais, que, no ato da desconstrução moral das suas personagens, acabam por espelhar a natureza desigual da sua sociedade.
Coescrito por Jafar Panahi e Nader Saeivar, “The Witness” usa o ferramental dramático normalmente presente na luta de classes, onde “donos disto tudo” safam-se sempre, para mostrar disparidades de género, com a moral e a lei islâmica a continuar a relegar as mulheres ao estatuto de seres na posse dos homens. Estes, aproveitando-se das regras inscritas pela suposta lei de Deus, condicionam as suas decisões de vida, seja no que toca ao casamento ou ao divórcio, passando pelo que fazer com os seus corpos e até o que podem ou não mostrar em público (como a questão do Hijab).
No centro desta coprodução alemã-austríaca-turca, a atriz Maryam Bobani é rainha e senhora na força e carisma de vestir a pele de Tarlan, uma professora que, após o assassinato de uma antiga aluna, Zara, não descansa até expor o marido que a assassinou, após anos de divergências quanto ao seu emprego e o seu papel no seio familiar. “Eu só quero que ela me obedeça”, diz este homem à velha professora, que o tinha interpelado de qual fora a razão porque mudou de opinião ao longo dos anos, já que, quando casou com mulher, a dança fazia parte da vida dela.
Como veremos ao longo do filme, este não é o único homem a pensar no sexo feminino como algo ao seu serviço. Veja-se igualmente o filho de Tarlan, que protesta que pelo facto da irmã ter entrado em confronto com o marido, pôs em risco a sua saúde financeira, numa daquelas cenas que nos leva à mesma parasitagem que recentemente tínhamos também sentido em “Os Irmãos de Leila”.
Durante todo o filme de Nader Saeivar, percorre pelo espectador um sentimento de profundo desamparo no feminino, de injustiça e impunidade, chegando-se ao desespero de carregar o dilema do fazer, ou não, justiça pelas próprias mãos. Tarlan é uma personagem fabulosa. Também ativista, defensora dos direitos dos professores na comunidade, também ela é inserida em inúmeros atritos e confrontações, ao ponto da sua tentativa de encontrar justiça para a antiga aluna atrair pressões de todos os quadrantes, seja da própria família, seja indiretamente pelo senhorio, que sugere que ela não tem de se preocupar com as rendas em atraso se for mais simpática com ele, seja de um conjunto de capangas que se movimenta nas sombras do poder. Resiliência e independência é a palavra-chave da sua figura, isto numa sociedade que a relega para segundo plano e cerca-a com as suas leis.
Se, por razões de “censura” no território, grande parte dos filmes iranianos caminha pelas sombras dos simbolismos, subtilezas e metáforas para contar as suas histórias de disparidades e ambiguidades no tratamento de classes e género, “The Witness” – sendo uma coprodução alemã/austríaca, – tem a oportunidade de ser muito mais direto nas suas críticas à hierarquia de poder. Mas ao invés de retratar o ato de justiça ou vingança bruta do “olho por olho, dente por dente“, o filme prefere algo bem mais profundo, numa última cena onde o derradeiro castigo do nosso assassino será ver a filha dele seguir os passos da progenitora, e “dançar, dançar, dançar” , como que dizendo que o espírito intransigente de combate da mãe encontrou um novo corpo, numa passagem de testemunho geracional sem rendições às injustas regras estabelecidas pelos patriarcado regente.



















