Deixando marcada no leste de França — na Alsácia e na Lorena — a sua pegada cinematográfica, Marie Dumora tem observado, filme após filme, vidas singulares, muitas vezes de mulheres ligadas a grupos marginalizados, num enclave social e cultural que tanto as aprisiona como alimenta a ação.
Depois de uma trilogia sobre a infância (Avec ou sans Toi; Emmenez-Moi; Je Voudrais Aimer Personne), dedicou-se às comunidades ciganas em La Place e Forbach for Ever. Em Belinda (2017), centra-se nos Ieniches, grupo itinerante europeu, acompanhando a protagonista do orfanato ao casamento. Já em Loin de vous j’ai grandi (2021), filma jovens criados em instituições de acolhimento, reafirmando o interesse por quem cresce fora do lar e das narrativas dominantes.
Em La Ligne Bleue (2025), os relatos individuais ganham novo fôlego ao cruzarem-se com a memória colectiva. O filme leva-nos a Natzwiller, na montanha de Struthof — outrora sagrada, transformada pelos nazis em campo de concentração e, desde então, um lugar maldito, impregnado pelo peso do passado. Dumora visita o espaço no seu estilo habitual: uma câmara subjectiva e contida, que se move ao ritmo das lembranças e dos testemunhos de idosos que eram crianças durante a Segunda Guerra, bem como dos filhos e netos que herdaram memórias imperfeitas desses tempos. O resultado é um retrato em que a história se molda tanto pela transmissão como pela perda.
“Éramos muito mais ingénuos naquele tempo do que a juventude de agora”, diz uma mulher idosa, respondendo a uma pergunta que nunca ouvimos. Dumora abraça essa fragmentação e a incompletude das respostas como parte da verdade da memória — o que se esvai, se transforma e preenche as lacunas dos factos com interpretações próprias. Contar o passado, lembra-nos, é também interpretá-lo.
Esse passado não persiste em arquivos nem em imagens de época — como no trabalho de Christophe Cognet sobre o poder da imagem — mas nas vozes, nas cicatrizes do terreno, nas aldeias, nas estradas e nas montanhas onde tudo aconteceu. As histórias passam de geração em geração, e alguns dos que surgem em cena estão literalmente ligados a esse horror. “Se não existisse esta macieira, os meus pais não se tinham conhecido”, diz uma mulher, relatando como a mãe conheceu o pai, prisioneiro em Struthof, com a ajuda inesperada de um oficial das SS.
Em Struthof — o único campo de concentração em solo francês — muitos homens foram forçados a trabalhar em pedreiras ou na desmontagem de motores de avião. Embora os alemães tentassem isolá-los da aldeia, eram por vezes vistos a reabilitar casas e castelos ou a construir a estrada que ainda hoje atravessa a região. Também por lá passaram quatro mulheres, que nos dizem terem sido espias e que, depois de subirem a montanha, nunca mais o desceram. Dumora percorre esses espaços e histórias, recolhe cartas e acede a pequenos objetos pelo caminho, deixando que sejam as palavras das pessoas que desenhem a sua narrativa. É uma forma que se afasta do académico, como sempre, mas rica nos detalhes que se cristalizaram nas memórias familiares e coletivas.
Ao fazê-lo, a francesa afasta-se do método de Frederick Wiseman, que evita o discurso verbal estruturado. Às palavras ouvidas somam-se gestos, lágrimas e silêncios — olhares perdidos sobre uma paisagem bela e carregada de más memórias. Se Wiseman testemunha pelo olhar, ela testemunha pela escuta. O resultado é um filme duro, contido e de uma força notável, não apenas como uma história de um passado que já lá vai, mas como esse passado percorre ainda inextricavelmente as veias do presente. E como as pessoas e o lugar também, para sempre, estão inextricavelmente conectados.



















