Com mais de uma dezena de curtas na bagagem, o realizador e produtor Nehir Tuna estreou-se nas longas-metragens com um drama coming-of-age que explora a instabilidade turca na década de 1990, fruto da crescente força das organizações religiosas num país secular desde a sua independência (1923).
E esse pano de fundo político, onde não faltam referências ao pai desse secularismo turco, Mustafa Kemal Atatürk, talvez maior que Deus, como questiona uma criança, invade diretamente a narrativa e vida de Ahmet, um jovem obrigado pelo pai a permanecer num dormitório islâmico (o ‘yurt’ do filme), enquanto continua a frequentar as aulas na escola pública.
O sentimento de pertença, de identificação de um indivíduo com um grupo e comunidade é o elemento chave de “Yurt”, já que Ahmet, no meio dos habituais problemas adolescentes que o fazem ficar de beicinho por uma colega, não se vê integrado em nenhum dos espaços que lhe parecem designados, agarrando-se principalmente à amizade que entretanto cria com um colega da escola, de origens bem mais humildes. E essa permanência forçada no Yurt causa no jovem uma ostracização geral, chegando-se mesmo ao roubo e a ataques físicos na escola, algo que é tratado com grande indiferença paternal, o que causa igualmente rebuliço na família.
Pintado quase do início ao fim com um preto-e-branco que não só dá um cinzentismo permanente ao ambiente hostil político da época, mas igualmente o estado mental de um jovem preso entre manter o legado do pai, do ser o único herdeiro masculino, e viver a vida que ele desejou ter, e o de adolescente sedento de liberdade e de identificação. É nesses momentos de liberdade que a cor invade o ecrã, ainda que o granulado situe o filme noutra época.
No todo, o drama que Ahmet vive é um espelho do drama de um país, produzindo-se assim um filme que joga entre o coletivo e individual como metáfora um do outro, essencialmente esmagando a sua persona ao interesse dos outros (o pai, o amigo, etc) e nunca ao seu.


















