Documentário sobre Zé Pedro chega aos cinemas

“Zé Pedro Rock n’ Roll” estreia nos cinemas nacionais dia 30 de julho

(Fotos: Divulgação)

18 de outubro de 2019. O cinema São Jorge enche-se para assistir em estreia mundial durante o Doclisboa a “Zé Pedro Rock n’ Roll”, documentário de Diogo Varela Silva que traça o percurso do falecido Zé Pedro, ícone do rock em Portugal.

Foi uma sessão de cinema, mas parecia um concerto, e olhando para o mundo atual em tempos de pandemia, este evento – que aconteceu há menos de um ano – parece ter sido numa realidade paralela, nem que seja pelo calor e proximidade humana que agora parece impossível de repetir.

Diogo não esteve nessa sessão, mas soube das emoções que provocou e das particularidades do público que munidos de cachecóis e bandeiras fizeram a mítica sala Manoel Oliveira explodir no final da sessão numa longa ovação.

Fiquei muito feliz”, explicou-nos o realizador em entrevista, mostrando orgulho no prémio do público conquistado, embora reconheça que o seu projeto nasceu com a premissa errada: da vontade em homenagear um amigo, “o que nem sempre é o melhor ponto de partida” para um filme.

Porém, admite que teve o cuidado de fugir “à parte lamecha”, pois facilmente uma obra desta índole poderia cair nessa tentação. 

No documentário percorremos, da infância à morte, de Timor a Lisboa, alguns momentos marcantes da vida do músico, narrados por quem se cruzou com ele nos trilhos da vida (Tim, Kalú, João Cabeleira, Gui, Miguel Quintão, Jorge Palma, etc), mas também pelo próprio, que em diversas entrevistas ao longo dos tempos foi detalhando pormenores da sua vida familiar, amorosa e, claro, da sua absoluta loucura pela música.

“Houve um trabalho de pesquisa muito grande, de arquivos filmados, radiofónicos, fotográficos. Essas coisas todas. Depois houve o estruturar de uma narrativa e filmar o que é preciso para a montar. O Zé Pedro podia dar variadíssimas histórias. O que me interessava contar e dar a conhecer é o porquê deste Zé Pedro? De onde é que ele vem? O que é que fez com que o Zé Pedro fosse o Zé Pedro?”, explica-nos Diogo, acrescentando que devido à sua amizade com o músico era impossível distanciar-se do material como autor. “Não há distanciamento, é impossível distanciar-me. Há sim a tentativa de levar as coisas para outro sentido que não o da lágrima fácil. Esse não era o meu interesse. Nem era o objetivo do filme. Mas não é um trabalho fácil, claro. É preciso pensar bem, estruturar bem as coisas antes de fazer. “

Reconhecendo que houve através de um processo crítico muita coisa que ficou de fora, “pois não era o que queria contar”, Diogo explicou-nos que foi fácil reunir o grupo de amigos e conhecidos de Zé Pedro para falarem sobre ele: “O Zé Pedro era uma pessoa querida por toda a gente, não sendo assim difícil encontrar pessoas para falarem dele.”

Já no que toca a outras questões da produção, Diogo destaca que em termos de financiamento o seu trabalho era “um pouco ingrato”, já que não teve o apoio do ICA, mas reconhece que a abertura da NOS em estrear o filme em sala abriu caminho para que a produção tivesse outra confiança e força: “Ajudou na produção saber que haveria uma distribuição garantida”.

Estreia em Tempos de Pandemia

Acho que temos de dar o passo em frente. Já fui ao cinema e gostei de lá voltar. Acho que se as pessoas vão à praia sem máscara, não vejo porque não possam ir a um cinema que está higienicamente e sanitariamente preparado para isso. Com as máscaras e medidas de segurança, não vejo porque não possam ir. Temos de começar a viver outra vez e não ficar reféns disto. Temos de ter cuidado, porque a realidade é outra. Se todos tivermos esses cuidado, podemos coexistir com a pandemia.”, diz o cineasta.

Novos projetos

Com projetos como produtor e dois documentários e uma ficção a caminho como realizador, Diogo Varela admite que o estado das coisas traz uma grande incerteza quanto ao futuro, mas recorda que essa não é a “única bota que tem de descalçar”. 

Embrulhado num processo litigioso, o seu projeto “Alfama em Si”, uma “ópera-fado” cinematográfica filmada no bairro lisboeta, continua sem qualquer data de estreia, pese embora as filmagens tenham sido concluídas há anos. 

Afirmando que tudo isto podia ser definido como um crime que lesa a cultura, até porque Alfama entretanto transformou-se num espaço turístico primordial e agora reinventa-se novamente para os tempos de pandemia, Diogo Varela explica o estado da produção: “Esse é um sapato muito complicado. Está tudo em tribunal. Houve incumprimento do produtor e enquanto isso não estiver resolvido dificilmente poderei terminar o filme. Mas quero muito vê-lo estrear, como devem calcular. Por todas as razões e mais algumas, até porque conheço muitas pessoas que participaram no filme, desde a minha avó ao José Mário Branco, o José Manuel Barreto. Pessoas que já não estão cá e não chegaram a ver o filme em sala e acho que este filme, até por eles, merecia sair. E pelo trabalho que todos tivemos em fazer um filme em Alfama, que não é pêra doce“. 

Quanto aos novo filmes, o cineasta fechou-se em copas, mas lá admitiu que os dois documentários têm mais uma vez uma ligação à música: “Acho que é a minha maneira de limpar a minha frustração de não ser músico. [risos] Freud deve explicar.[risos] Mas sim, os documentários de alguma maneira estão ligados à música. A longa-metragem de ficção não tanto“. 

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