Festa do Cinema Italiano está de volta a Portugal já este mês

(Fotos: Divulgação)

Mais de 30 filmes a circularem por cinco cidades portuguesas vão compor a programação da 6ª edição da Festa do Cinema Italiano. Em Lisboa, a primeira cidade onde as obras serão exibidas, o evento estende-se entre 21 e 28 de março. A partir de abril estende-se, com uma programação menor, ao Porto, Coimbra, Funchal e Loulé. Como já é habitual, a Festa reúne o vigor do cinema italiano através de uma mistura de filmes novos e clássicos, destacando ainda algumas secções específicas.

O novo filme do realizador de “A Melhor Juventude” (2003) e “Sangue de Guerra” (2008), Marco Tulio Giordana, abre o evento. “Romanzo di una strage”, que causou sensação em Itália no ano passado e recebeu o prémio do Júri no festival de Karlovy Vary, aborda um atentado a bomba perpetrado contra um banco em Milão, em 1969. Já o encerramento caberá ao novo trabalho de Giuseppe Tornatore (“Cinema Paradiso”, “Malena”), “La Migliore Offerta”, que tem Geoffrey Rush, Jim Sturgess e Donald Sutherland no elenco, para além do octogenário Ennio Morricone na banda sonora. 

Dos sete títulos que compõe a sessão competitiva deste ano, destaque para “Bellas Mariposas”, de Salvatore Mereu, “Io Sono Li” de Andrea Segre, “Il Futuro”, de Alicia Scherson, e «A.C.A.B. All Cops Are Bastards», de Stefano Sollima.

“Bellas Mariposas” é uma das obras mais fortes nesta mostra, fita que até podia ser caracterizada como um drama coming of age no meio dos Feios, Porcos e Maus da região de Cagliari, na Sardenha. A sua personagem principal é Cate, uma adolescente que narra para a câmara “tudo” o que se passa à sua volta, construindo um panorama não necessariamente belo do mundo que a rodeia, onde até uma vidente intervirá no futuro de todos. 
 
 “Bellas Mariposas”

“Il Futuro”, por sua vez, é uma adaptação ao cinema do livro de Roberto Bolaño «Una Novelita Lumpen» – que tem a assinatura da chilena Alicia Scherson, realizadora de «Turistas» (2009) e de «Play», o vencedor do Indie Lisboa em 2005, e que mais uma vez enche os seus trabalhos com alguns elementos pop no meio de vidas simples. Com Rutger Hauer no elenco, acompanhamos a história de dois jovens que ficam órfãos depois de os seus pais exilados morrerem num acidente de viação. Tentando sobreviver, Bianca (Manula Martelli) e Tómas (Luigi Ciardo) rapidamente caiem na prostituição e nos pequenos esquemas, engendrando derradeiramente um plano que envolve um assalto a um culturista que é ex-ator (Hauer) de filmes peplum ( filmes italianos de cariz histórico, muito populares na década de 60) e que se torna amante da jovem Bianca.

“Io Sono Li”, assinado por Andrea Segre, é um drama de contornos poéticos/platónicos em torno de uma mulher chinesa que trabalha numa fábrica têxtil na periferia de Roma, a fim de obter documentos  que permitam que seu filho de oito anos possa vir para Itália. Subitamente, ela é transferida para Chioggia, uma pequena cidade-ilha na lagoa de Veneto, indo trabalhar como empregada num pub. Bepi, um pescador eslavo, apelidado de “O Poeta” pelos amigos, é uma figura regular naquele pequeno espaço. O encontro dos dois estranhos representará uma fuga à solidão, um diálogo silencioso entre duas culturas que são diferentes, mas não muito distantes, pelo menos no que toca à solidão e à humanidade.

Recorde-se que «Io Sono Li» foi o vencedor do prémio Lux, atribuído pelo Parlamento Europeu, derrotando «Tabu», de Miguel Gomes e «Csak a szé» (Just The Wind) de Bence Fliegauf
 
 
«A.C.A.B. All Cops Are Bastards»

«A.C.A.B.» é um acrónimo usado para definir a expressão All Cops are Bastards. A sua génese tem várias décadas, mas foi o movimento punk nos anos 70 e mais recentemente os holligans e ultras ligados ao mundo do futebol que mais o utilizaram/utilizam, muitas vezes musicalmente ou como tatuagem, para expor a sua relação de antipatia (para não dizer de guerra) com a polícia e as forças da lei, especialmente a polícia de intervenção (ou «Celerino» como se diz em italiano). Neste poderoso filme  seguimos um grupo de polícias de intervenção nas suas mais variadas atividades, sejam estas ligadas ao acompanhamento de claques de futebol, à ajuda no desalojamento de pessoas que ilegalmente ocupam edifícios, ou outras situações em que haja hipótese de desordem. 

Jogos do Benfica, triângulos amorosos, clubes perversos e Vincent Gallo ao som de Vitalic

Um projeto singular a ser exibido na mostra é “Benfica-Torino 4×3”, um documentário co-produzido por italianos e portugueses sobre um jogo amigável entre o Torino e o Benfica, realizado no Jamor em 1949. Depois das equipas darem espetáculo em campo com seus sete golos, os italianos sofrem um acidente aéreo de volta para casa. A morte de toda a equipa gera comoção em Portugal, com milhares de pessoas a prestarem sentimentos em frente à embaixada italiana.

Na seção panorama destaque ainda para “È Stato Il Figlio”, de Daniele Cipri, que fez parte da seleção oficial do último Festival de Veneza, “Uma Famiglia Perfetta”, de Paolo Genovese, e “L’Intervallo”, escolhido o melhor filme do último Lisbon Estoril Film Festival. Na seção Amarcord, como habitual, é dada a hipótese de se assistir grandes clássicos no grande ecrã – neste caso “Fellini 8 e Meio” e “O Leopardo”, de Luchino Visconti. Este cineasta também terá “Morte em Veneza” exibido no festival.

Outra curiosidade é um documentário do ano passado sobre um explosivo triângulo amoroso vivido pelo grande nome do neo-realismo italiano, Roberto Rosselini, a sua paixão Ingrid Bergman e a sua mulher Anna Magnani, substituída pela atriz sueca, que protagonizaria seu novo filme, “Stromboli”. Decidida a vingar-se Magnani vai trabalhar num filme nas ilhas Eólias, iniciando a chamada “La Guerra Dei Vulcani” (guerra dos vulcões) que dá título ao filme. 

Nota ainda para o foco ao cinema di genere italiano, denominação que designa todas aquelas produções cinematográficas internacionalmente conhecidas como B-movies, em particular ao poliziottesco.

Nas Altre Visioni, outra das secções da mostra, duas notas. Uma para “Tulpa”, filme giallo realizado por Federico Zampaglione, que está atualmente no programa do Fantasporto. No filme, que conta com Claudia Gerini, Michela Cescon, Michele Placido e Nuot Arquint, seguimos a história de Lisa, uma mulher de negócios que frequenta à noite do depravado clube “Tulpa“.  As coisas pioram quando Lisa descobre que alguém anda a assassinar os seus amantes…
 
Também nesta secção está o bizarro «The Legend of Kaspar Hauser» (A Lenda de Kaspar Hauser) de David Manuli, um filme livremente inspirado no caso de uma criança abandonada, envolta em mistério, que foi encontrada na praça Unschlittplatz em Nuremberga, na Alemanha do século XIX (1828).
 
 
 
Nesta readaptação da história, estamos na Sardenha, numa data não especificada. Perto da praia, um corpo flutua. Ele é um príncipe herdeiro que misteriosamente desapareceu quando era criança. Quis o destino que ele reaparecesse, mas apesar de o corpo reagir, a sua mente parece estar vazia. Apenas cinco pessoas vivem nesta ilha semi-deserta: a duquesa, que é a líder, um seu serviçal, o homem obscuro que é amante da nobre, a vidente e o xerife. Mas a sua chegada vai quebrar a rotina da pequena comunidade, e cedo Hauser vai perceber quem são os seus amigos e os inimigos. O enfant terrible Vincent Gallo  é o protagonista nesta história conduzida ao som de Vitalic.

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