Por vezes, mudar o que se sabe errado pode assumir formas inesperadas e até as coisas a que antes nos opusemos se podem apresentar como alternativas viáveis a um mal maior.
Este é o argumento de Robert Stone, um ambientalista confesso que foi nomeado pela academia para Melhor Documentário em 1987 com o seu primeiro filme (também apresentando em Sundance): “Radio Bikini”, um trabalho sobre os ensaios nucleares efetuados no Atol de Bikini e as suas consequências para as populações indígenas. Toda a sua vida, diz nas notas que deixa no site do filme (ler aqui), Stone definiu-se contra a energia atómica, mas em “Pandora’s Promise”, filme apresentado este ano no festival de Sundance, defende agora esta energia como a alternativa contra as energias mais destrutivas e consumidoras de recursos baseadas em combustíveis fósseis.
Se desde cedo a energia nuclear se revelou no seu potencial destrutivo (como é possível esquecer as palavras de J. Robert Oppenheimer, considerado o pai da bomba atómica, citando o Bhagavad Gita, um texto religioso hindu: “Now I am become Death, the Destroyer of Worlds” e sobre esse potencial que se travou a Guerra Fria durante décadas, o seu potencial mais prático sempre foi manchado pelos grandes desastres de Three Mile Island, Chernobyl e mais recentemente Fukushima. O movimento ambientalista sempre se opôs à energia nuclear e ao estabelecimento de centrais, mas, por motivos económicos e tecnológicos, estas foram proliferando pelo mundo. Se bem que os acidentes que ocorreram foram agravados por causa de erros humanos (na construção, no compreender, no assumir e no reagir), a narrativa que se tira deles é a do perigo da energia nuclear.
Robert Stone, que sempre acompanhou o movimento ambientalista e as suas lutas, foi-se desiludindo com o pessimismo que diz caracterizar este movimento. Enquanto filmava “Earth Days”, que apresentou em Sundance em 2009 e que tenta documentar o desenvolvimento deste movimento na sua juventude, Stone foi-se dando conta do “cinismo, fatalismo e pensamento apocalíptico da maioria dos ecologistas”, que pareciam não acreditar que as alternativas pelas quais lutavam iriam funcionar e que estaríamos perdidos. Resolveu procurar alternativas e foi-se dando conta da quantidade de pessoas que inicialmente se opunham ao uso da energia nuclear, mas que mudaram de opinião: jornalistas, cientistas, ecologistas e investigadores. Em “Pandora’s Promise” entrevista essas pessoas e tenta enquadrar o seu argumento numa perspectiva histórica e científica, procurando fundamentá-la e oferecer uma alternativa viável e positiva. Visita os locais dos acidentes nucleares e uma praia no Brasil onde a radiação é trezentas vezes superior ao considerado normal mas devido a causas naturais, mostrando que a vida resiste em condições consideradas radioativamente adversas.
Se em 2010, “Into Eternity” [ler critica] lidava com a questão dos resíduos nucleares e o ano passado “The Radiant” [ler critica]) explorava o medo exacerbado pelo desastre de Fukushima, “Pandora’s Promise” pode ser parte de um diálogo necessário, quando os recursos escasseiam, qualquer meta que se tenha estabelecido em relação às emissões de carbono é ignorada pela indústria e a “Pegada de Carbono” se tornou apenas a mercadoria visível de todos os esforços que se têm efetuado.

