Realizadoras, produtoras e argumentistas são agora mais do que nunca no mundo do cinema independente, contudo isso não acontece nos grandes estúdios de Hollywood. Reconhecendo uma oportunidade de desenvolvimento da cultura cinematográfica e de descobrir novos artistas e audiências, surgiu um estudo do Instituto de Sundance e da associação Women in Film que teve como principal objetivo perceber qual a evolução da presença das mulheres nesta indústria cinematográfica predominantemente masculina.
Nas conclusões desse estudo, que teve em conta dados entre 2002 e 2012, as mulheres realizaram 24% dos filmes apresentados em Sundance, número que aumenta para 29% quando se considera todas as funções atrás da câmara. Este ano, é especialmente bom para as mulheres, já que 50% dos filmes apresentados em competição em Sundance têm por trás uma realizadora, sendo que dos 3879 filmes submetidos ao festival, 16,9% também eram de realizadoras. John Cooper, diretor do festival, refere que esta percentagem não foi intencional: “Cada filme vale por si, nós procuramos apenas as histórias mais originais”. Keri Putnam, diretor executivo do Instituto de Sundance, acrescenta que “fala-se tanto sobre esta falta de igualdade de género atrás das câmaras, que queríamos perceber como é possível mudar a situação”. “Contudo, é necessário perceber primeiro o estado das coisas.“, acrescenta.
Kristen Bell numa cena de «The Lifeguard», um filme de Liz Garcia
Putnam e Schulman, presidente da Womem in Film L.A, concluíram também, através deste estudo, que apesar do crescente número de realizadoras presentes em Sundance, estas apenas realizaram 4,4 % dos filmes que pertencem ao top 100 de bilheteira, entre 2002 e 2012. Claramente as mulheres são mais sucedidas em projetos mais discretos e fora das grandes produções de Hollywood. Estas fazem mais documentários que filmes narrativos, são mais contratadas para projetos de menor dimensão do que para projetos de grande orçamento.
O estudo inclui também as experiências de realizadoras que identificaram, como principal barreira ao seu trabalho, razões financeiras – falta de financiamento para os seus projetos e o clima predominantemente masculino que ainda se vive na indústria.
Putnam e Schulman anunciaram assim que as duas organizações vão trabalhar de forma estreita de modo a auxiliar realizadoras independentes na criação de uma carreira sustentável, quer em documentários, quer em filmes narrativos: “É necessário focarmo-nos menos em quais são as oportunidades que devem ser dadas a realizadoras, mas antes no que é preciso para que estas tenham essas oportunidades”, refere Schulman.
Lynn Shelton, realizadora de “Touchy Feely“
Interessante é também notar que das 113 longa-metragens apresentadas em Sundance este ano, uma grande parte centra-se em histórias sobre mulheres, de acordo com o diretor de programação Trevor Groth, referindo este facto como uma extensão natural do maior número de realizadoras presentes no festival. A maioria destes filmes centram-se maioritariamente na exploração sexual e na procura de ligações emocionais e físicas, como é o caso de “Concussion”, no qual uma mulher adota uma vida secreta como prostituta, “Touchy Feely”, onde uma massagista tenta perceber a razão de subitamente não conseguir tocar nos seus clientes sem sentir repulsa, “ 2 Mothers”, de Anne Fontaine ou “The Lifeguard”.
Resta saber se este é um ano anómalo ou se representa um ponto de viragem para o cinema no feminino, quer no circuito de filmes mais independentes, quer num cinema mais para as massas. Afinal, só em 2010 Kathryn Bigelow tornou-se na primeira realizadora a ganhar um Óscar – com um tema, curiosamente, muito masculino.

