Sundance’13: Deus odeia os gays, mas adora o Uganda…

(Fotos: Divulgação)

O Uganda tem sido um dos países que ao longo do tempo mais se tem destacado, pela negativa, na ativa despromoção de direitos humanos – nomeadamente dos direitos LGBT (em defesa de lésbicas, gays, bissexuais, e transgéneros), disfarçada de campanhas contra a “imoralidade sexual”, seguindo o que a Bíblia supostamente diz. 
 
A situação culminou recentemente numa proposta de lei, intitulada “Kill the Gays”, que pune com a pena de morte a homossexualidade, e que vai reunindo um apoio preocupante, graças a este “lobby”. Este movimento evangélico anti-gays (e anti-qualquer coisa considerada “imoral”), que tem influências evangélicas norte-americanas, surge como tema central de um dos documentários mais badalados da edição do Festival de Sundance deste ano.
 
“God Loves Uganda”, claramente um jogo de palavras com o tradicional “God Hates Fags” (“Deus odeia ‘maricas’”), decide tocar com o dedo numa ferida há muito exposta. O documentário, através de uma sequência habitual de entrevistas, e câmaras escondidas, com acesso sem precedentes, leva o espectador para dentro deste movimento evangélico com sede nos Estados Unidos. 
 
Entre os principais visados, temos Lou Eagle, o criador de “The Call” (“A Chamada”), uma personalidade que traz milhares de crentes a rezar contra o “pecado sexual”; a Reverenda Joanna Watson, uma missionária que ajuda Eagle a coordenar o seu projeto; e a International House of Prayer (IHOP), um espaço fundado no Kansas a 7 de maio de 1999, para uma vigília 24 horas por dia, 7 dias por semana, para que “o poder supremo de Deus seja lançado em todas as esferas da sociedade”, curando assim as “doenças culturais”. O objetivo desta organização: “espalhar a palavra de Deus a todos os lares do planeta até 2020”.
 
Pelo meio, surgem também figuras positivas – nomeadamente o Bispo Christopher Senyonjo, um dos principais ativistas pelos direitos LGBT em Uganda, e por isso, e sobretudo pelo seu historial, um dos homens mais corajosos nesta luta pelos direitos humanos; e o Reverendo Kapya Kaoma, um ex-padre forçado a sair de Uganda, quando uma investigação sobre o tratamento desumano das pessoas LGBT no país o colocou a sua vida em risco.
 
 
 
Roger Ross Williams, o argumentista e realizador deste documentário, e o primeiro afro-americano a ganhar um Oscar para produção e realização de um filme (graças à curta “Music by Prudence” de 2010), cresceu numa igreja, fliho de um líder religioso da comunidade e com uma irmã pastora. Homossexual assumido, Williams quis com este documentário explorar um desejo há muito latente: o poder da religião para transformar vidas ou para destruí-las, e as contradições que o fanatismo vindo deste movimento traz. “Pensei em seguir os ativistas – homens e mulheres admiráveis e corajosos – que estavam a lutar contra estas políticas. Mas estava mais curioso sobre as pessoas que, efetivamente, me queriam matar. Notavelmente, quase todos os evangélicos que conheci Americanos ou Ugandeses – educados, agradáveis, até charmosos. E no entanto, sabia que se a proposta [“Kill the Gays”] passasse, haveria sangue nas ruas de Kampala.“.
 
“God Loves Uganda” não tem ainda data de estreia marcada para o nosso país, mas deverá marcar presença num futuro Queer ou DocLisboa, certamente…
 
http://www.youtube.com/watch?v=_x3PTLQRQbA 

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