Como é que um novato conseguiu fintar a Disney e fazer um filme (“Escape from Tomorrow”) dentro dos seus parques temáticos (Orlando e Anaheim) sem nunca pedir a autorização? Esta é a pergunta que o Los Angeles Times lança a Randy Moore, um jovem argumentista e realizador de Burbank que com a herança que os avós lhe deixaram (menos de 1 milhão de dólares) conseguiu executar uma obra de ficção tendo como pano de fundo um parque temático da Disney. O filme estreou na sexta-feira no Festival de Sundance, inserido na seção NEXT.
Como foi possível?
Recorrendo a uma câmara diminuta, estas filmagens – que duraram 25 dias – em jeito cinema «guerrilha», tiveram diversas limitações. Por exemplo, se era impossível aos atores terem o guião exposto no parque, recorria-se aos smartphones para aceder ao texto. Os extras e figurantes são na verdade gente que visitava o parque – que tal como a Disney não têm qualquer ideia que possam estar no filme. Quando foram necessárias duas francesas para as filmagens, a solução foi descobri-las no parque e filmar o que se podia. Como havia câmaras por todo o lado, o resto era acessível.
A ligação entre o realizador, o assistente de realização e o cinematografo foi também um desafio. Todos comunicavam apenas pelo telemóvel, de maneira a não levantar suspeitas, e durante três anos Moore viveu num verdadeiro estado de tensão e ansiedade com receio que a Disney descobrisse o projeto e o tentasse silenciar por vias legais.
Claro que para manter este secretismo, o realizador suplicou a todos os envolvidos que em momento algum falassem da produção, nem mesmo aos amigos mais próximos. A certo ponto, Moore estava tão tenso com o facto de levar o projeto para uma empresa de pós-produção, que preferiu editar tudo na Coreia do Sul, país que visitou constantemente nos últimos dois anos.
Porquê filmar a obra num parque da Disney?
Segundo a visão do realizador, a justaposição da iconografia americana do Rato Mickey e da Disney como pano de fundo, com uma história estranha e negra, é ouro – cinematograficamente falando.
No filme seguimos um pai quarentão (Roy Abramsohn) no seu último dia de férias num parque da Disney conjuntamente com a mulher (Elena Schuber) e os dois filhos (Jack Dalton e Katelynn Rodriguez). Enquanto leva os seus filhos a passear pelas diversas atrações existentes, o homem começa a ser perseguido por algumas imagens perturbadoras. Sem nunca ser um filme puzzle, “Escape from Tomorrow”) joga bastante com o real e o sonho, sendo derradeiramente o estudo em torno de um homem que perdeu qualquer sentido de optimismo num local repleto desse sentimento.
Um filme que nunca chegará ao circuito comercial?
“Escape from Tomorrow” foi exibido na passada sexta-feira e quanto a isso não há nada a fazer. Quanto a uma eventual estreia comercial, é muito pouco provável, até porque o cineasta sabe que violou uma série de normas, não só com a Disney, mas com todos os «extras» que surgem em cena. Processos em tribunal, especialmente num país como os EUA, são de esperar.
«O filme está aí, não há nada a fazer (…) se nunca conseguir distribuidor, ok. Se muita gente não o vir, ok. Eu fiz o filme e agora ele está no mundo. Isso era tudo o que eu queria», conclui Moore.

