Arranca hoje o Festival de Cinema de Sundance

(Fotos: Divulgação)

Arranca hoje, e prolonga-se até ao próximo dia 27, o Festival de Cinema de Sundance, o mais mediático dos certames ligados ao cinema independente e – a par do Festival de Toronto – o mais importante no que toca à promoção e divulgação de filmes para o mercado norte-americano.

Com a exibição de 119 longas-metragens provenientes de 32 países, o certame volta a apostar na juventude dos seus cineastas, estando no terreno mais de 51 primeiras obras, demonstrando que é aqui que começa o buzz em torno de muitos filmes que durante 2013 darão que falar. Basta lembrar que o vencedor do ano passado, «Bestas do Sul Selvagem», começou aqui o seu percurso, estando um ano depois com diversos prémios na bagagem (como melhor primeira obra em Cannes) e com 4 nomeações aos Óscares.

Os Tabus também se abatem….

Muitos consideram subversivas muitas das propostas presentes no Festival de Sundance, este ano muito orientado para escolhas que se focam em muitos tabus. Numa conversa com a agência Reuters, o diretor da programação do Festival, Trevor Groth, afirmou que existe uma «nova audiência esfomeada pelo tabu da sexualidade» e das relações pouco consensuais.

Matérias sensíveis como o aborto e organizações secretas ligadas ao combate ao terrorismo também prometem dar que falar…

Sexo 

 
Lovelace 

Olhando para a programação do certame constata-se algumas tendências. O sexo, por exemplo, será um dos focos de algumas das mais apelativas obras presentes. Basta olhar para «Lovelace», um filme de Rob Epstein, Jeffrey Friedman – que regressam assim ao certame depois de «Howl» (O Uivo) ter passado por lá em 2010. Acompanhando a história de Linda Lovelace, a vedeta porno de «Garganta Funda» que viria a tornar-se ativista contra a indústria pornográfica, a fita é muito aguardada, nem que seja pelo calvário que os cineastas passaram para encontrar todo o financiamento desde que começaram a idealizar o projeto em 2010. Amanda Seyfried, Peter Sarsgaard, Adam Brody, Eric Roberts, Chloe Sevigny, Hank Azaria, Bobby Cannavale, Chris Noth, Sharon Stone, Juno Temple, Wes Bentley, Romeo Brown, Robert Patrick e James Franco são os nomes no elenco de uma obra que se deu ao luxo de cortar na mesa de edição a participação de Sarah Jessica Parker.

Barões do porno britânico
 
 
«The Look of Love»

Um dos mais prolíferos cineastas britânicos, Michael Winterbottom, leva até Sundance a sua nova obra: «The Look of Love», um biopic em torno de Paul Raymond, o famoso proprietário britânico de diversas publicações pornográficas e de um clube de Striptease no Soho, Londres.  Falecido em 2008, aos 82 anos, este multimilionário era o que se podia chamar uma versão britânica de Hugh Hefner, tendo tido uma vida bastante curiosa e com frequentes dramas, como a morte da sua filha nos anos 90 devido a uma overdose.

Steve Coogan é o protagonista desta obra e Stephen Fry faz-lhe companhia no elenco.


James Franco reimagina “Cruising” (1980)
 
 
«Interior. Leather Bar.»

Em 1980 surgia nos cinemas «A Caça», um filme de William Friedkin que colocava Al Pacino no papel de um detective que tem de infiltrar-se no submundo da cultura gay nova-iorquina de maneira a travar um serial killer que tem feito diversas vítimas recorrendo a técnicas sadomasoquistas. Contudo, há que frisar que a Motion Picture Association of America obrigou o cineasta a cortar 40 minutos de material sexualmente explícito, que nunca chegou ao cinema.

Franco, em parceria com Travis Mathews, reinventam em «Interior. Leather Bar.»  o que poderia ter acontecido nessas cenas perdidas, sendo conhecido que o filme conterá mesmo sexo explicito.
 

Relações Proibidas ou «mal vistas»

Um dos projetos que promete chocar o festival é “Two Mothers”, o novo filme de Anne Fontaine. A cineasta falou com o c7nema recentemente e admitiu que a sua obra será politicamente incorreta e muito transgressiva.

Baseando-se numa obra de Doris Lessing, esta é – segundo as suas palavras – «uma história incrível, que se passa na Austrália, com duas mulheres que são as melhores amigas do mundo e têm dois filhos da mesma idade que vivem em comunidade. É uma história de amor entre essas duas mulheres e esses dois filhos.»
 
 Naomi Watts e Robin Wright em “Two Mothers”  

«É interessante [imaginar] como vai reagir a América, porque é transgressivo, mas de uma maneira muito natural. Não é uma provocação, para mim é uma história de amor muito forte.», concluiu a cineasta – que contou no elenco com Naomi Watts e Robin Wright. 

Hannah Fidell apresenta em Sundance «A Teacher», fita que se centra na relação proibida entre uma professora texana e um aluno. E mesmo quando o risco de o caso ser descoberto aumenta, o investimento da professora na fantasia ganha mais força. Incapaz de controlar-se, ela vai entrar num caminho auto-destrutivo.

Finalmente, uma nota para «The Lifeguard», uma obra de Liz W. García sobre a perigosa relação de uma quase trintona – que é forçada a regressar a casa dos pais – e um adolescente. 

O aborto, o derradeiro tabu

Desde o assassinato do Dr. George Tiller no Kansas, em 2009, apenas quatro médicos nos Estados Unidos continuam a realizar abortos tardios. Esses médicos, todos os colegas de Tiller, colocam a sua convicção à frente da sua segurança e da vida pessoal, e este documentário, intitulado «After Tiller», acompanha-os em diversos momentos dolorosos onde terão de entrar muitas vezes na pele das «pacientes» e tomarem decisões.

Guerras Sujas

Assinado por Richard Rowley, «Dirty Wars» promete revelar detalhes sobre uma unidade especial de operações (Joint Special Operations Command), cujos elementos que a compõem não existem no papel, nunca serão apresentados no congresso e  que têm o poder de execução, mesmo de cidadãos americanos. 
 

Pioneiros da Computação – jOBS e outros que tais….

«jOBS» 

No reino dos biopics há que inevitavelmente apontar o dedo a «jOBS», um filme onde Ashton Kucher assume o papel de Steve Jobs. Realizado por Joshua Michael Stern, «jOBS» acompanha os primeiros anos de Jobs como um jovem impressionável e hippie rebelde a caminho do sucesso. Seguindo os 30 anos que mais marcaram a sua vida, o filme foca-se na visão que os seus colegas e amigos têm dele.
Ainda no reino dos computadores, Andrew Bujalski está de volta depois do bem sucedido «Funny Ha Ha». Desta vez o chamado «padrinho do mumblecore» apresenta «Computer Chess», uma comédia existencial sobre dois homens que ensinam máquinas a jogar xadrez, mas no tempo em que as máquinas eram trapalhonas e o ser humano era considerado muito superior. Um dos filmes mais interessantes de seguir de um dos nomes mais curiosos do cinema independente.

Finalmente, a tentativa do Google digitalizar todos os livros do mundo (Google and the World Brain) e a história da Wikileaks (We Steal Secrets: The Story of Wikileaks), são outras apostas do festival, nestes casos no registo documental.

A Geração Beat está na moda…

 «Kill Your Darlings»

O interesse na geração Beat tem contaminado o cinema independente recente. No ano passado, «Pela Estrada Fora» deu que falar e este ano chega a vez de «Kill Your Darlings» e «Big Sur» iniciarem o seu percurso “festivaleiro” em Sundance.

O primeiro tem como atrativo o elenco. Jack Huston (como Jack Kerouac), Daniel Radcliffe (como Allen Ginsberg), Dane DeHaan (como Lucien Carr, um colega de Ginsberg), Ben Foster (como William Burroughs), Elizabeth Olsen (como Edie Parker), Michael C. Hall, Kyra Sedgwick e Jennifer Jason Leigh são nomes fortes do thriller «Kill Your Darlings», uma obra que mostra como como um assassinato na Universidade de Columbia em 1944 conseguiu juntar alguns jovens escritores que iriam desencadear a chamada geração Beat.
 
«Big Sur»– adaptação de um livro de Jack Kerouac publicado em 1962 – conta o exílio do autor na cabana do amigo e poeta beat Lawrence Ferlinghetti. Assinado por Michael Polish, que juntamente com o seu irmão Mark fez furor com «Twins Falls Idaho» (1999) e «Northfork» (2003), «Big Sur» conta no elenco com Jean-Marc Barr, Anthony Edwards, Kate Bosworth e Josh Lucas.

A música sempre em foco 

Como habitual, são muitas as propostas documentais ligadas à música e a personalidades do meio que vão ter a sua estreia em Sundance. Um dos projetos mais apetecidos é «Sound City», documentário que conta com a realização de Dave Grohl, vocalista dos Foo Fighters. Na obra acompanhamos a história dos famosos Sound Studios, localizado em Van Nuys, Califórnia, e onde já gravaram músicos como Neil Young, Nirvana, Fleetwood Mac, Guns N ‘Roses, Tom Petty, Cheap Trick, Rage Against the Machine, Nine Inch Nails e Metallica.
 
Alison Ellwood irá apresentar um documentário sobre os The Eagles, enquanto Mike Lerner e Maxim Pozdorovkin cruzam a música e o ativismo politico em «Pussy Riot – A Punk Prayer», uma obra sobre o novo símbolo da luta interna e (também) externa contra o governo do russo Vladimir Putin.

Aqui também há sequelas e remakes 

 

O cliché de que Hollywood e os grandes estúdios são os únicos a desenvolver remakes e sequelas encontra em três participantes do festival um contraponto. O cinema indie, mesmo o verdadeiro (e não aquele indie que se limita a estar fora do sistema dos seis grandes estúdios) também acompanha essa tendência. Uma das mais mediáticas sequelas presentes no certame é «Before Midnight», filme que (supostamente) encerra a (agora trilogia) iniciada com «Antes do Amanhecer» (1995) e continuada com «Antes do Anoitecer» (2004). Julie Delpy e Ethan Hawk filmaram com Richard Linklater na Grécia este novo filme – que sem dúvida é um dos pesos pesados do certame.
 
Ainda nas sequelas, há que mencionar  «S-VHS», o segundo volume de uma antologia de terror iniciada com «V/H/S» em 2012 e que surge assinada por seis realizadores: Simon Barrett (argumentista de «V/H/S»), Adam Wingard (You’re Next), Edúardo Sanchez (O Projeto de Blair Witch»), Gregg Hale (Say Yes Quickly), Timo Tjahjanto (Macabre), Gareth Huw Evans (The Raid) e Jason Eisener (Jason Eisener). Mantendo a mesma alma do primeiro filme, esta segunda geração de sustos vai ter a sua estreia – tal como o primeiro filme – na famosa secção Midnight.
 
Nos remakes, uma nota para «We are what we are», refilmagem americana do drama de terror mexicano «Somos Lo que Hay». O filme original era feito por mordidelas morais à sociedade mexicana e ao mundo contemporâneo, mascaradas num drama de horrores onde vemos como a família do homem lida com a perda do patriarca. Na verdade eles são uma família de canibais, que vivem no limiar da pobreza e obcecados com um ritual de morte sinistro que antecipa as suas refeições. Jim Mickle, realizador de “Stake Land”, assina esta nova versão.
 
 «Prince Avalanche»
 
Finalmente, destaque para «Prince Avalanche», uma versão americana baseada na comédia islandesa «Either Way». No filme original – que ganhou o Festival de Turim em 2011 – seguimos dois homens que trabalham numa região remota a marcar linhas e traços nas estradas e que criam uma amizade incomum. Esta «coming-of-age», em tempos diferentes da vida de cada um, produziam no filme original diálogos muito curiosos, quase sempre centrados nas suas relações, pois o isolamento e o afastamento da sua vida quotidiana implicam diversos problemas pessoais. Paul Rudd, Emile Hirsch e Lance LeGault protagonizam a obra – que tem a assinatura de David Gordon Green

A “estreia” de novatos que não o são 

«Stoker»
 
Muitos cineastas apresentam os seus primeiros trabalhos em Sundance, iniciando carreiras que lhes permitirão maiores voos. Park Chan-wook – aclamado realizador sul coreano de filmes como «Oldboy» – não é propriamente um novato, longe disso, mas está presente no certame com «Stoker», um thriller psicológico que marca a sua estreia numa produção em inglês. Com Mia Wasikowska (Jane Eyre), Matthew Goode (Watchmen), Nicole Kidman (Trespass), Dermot Mulroney (My Best Friend’s Wedding) e Jacki Weaver (Animal Kingdom), «Stoker» marca também a estreia de  Wentworth Miller (Prison Break) no argumento, ainda que  sob o pseudónimo Ted Foulke 
 
 
 
 

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