Ciclo Michael Haneke no Nimas: Intimidade e violência

(Fotos: Divulgação)

Boa oportunidade para conhecer ou rever no grande ecrã os principais trabalhos de um dos mais emblemáticos e reconhecidos cineastas da atualidade. Ao mesmo tempo que entra em cartaz o seu último filme, “Amour”, o cinema Nimas, em Lisboa, exibe de 6 a 12 de dezembro as suas mais importantes obras. Haneke tem um currículo impressionante de prémios, com particular apreciação pelo Festival de Cannes, onde já ganhou três Palmas de Ouro (além de ser o atual vencedor, com “Amour”, já recebeu o prémio de Melhor Filme com seu penúltimo trabalho, “O Laço Branco”, e Melhor Realizador por “Caché”, de 2005. Já Prémios do Júri levou dois: por “Código Desconhecido” e “A Pianista” (2002).

Quase sempre a espionar plácidas famílias de classe média, o que o cineasta encontra nunca é muito bom – e por vezes os resultados no grande ecrã não são, de todo, agradáveis de se ver. Mais que a hipocrisia da classe média, com a qual faria uma ponte direta com o cinema de Luís Buñuel, a investigação que propõe é muito mais psicológica e social – por vezes com incidência de ambas em igual medida.

Este é o caso de “Brincadeiras Perigosas” (será exibida a versão austríaca), talvez um dos mais duros filmes do realizador, onde submete uma família de classe média aos mais terríveis suplícios através da invasão de sua casa por dois sujeitos sádicos. Nas entrelinhas, joga com o desejo de violência do próprio espetador, ao mesmo tempo que investiga o quanto de atrocidade gratuita existe naquilo que a própria indústria do entretenimento lhe fornece.
 
Já em «Código Desconhecido», diversas histórias entrelaçam-se em Paris numa nova crítica à violência, ao racismo e à xenofobia, algo aqui mais presente e explícito que em outros filmes do autor. No elenco encontramos Juliette Binoche, ela que depois de ver«Funny Games» pediu para colaborar com o cineasta. 

“Caché” é bastante mais suave para os seus padrões: trata de uma família, vivida por Daniel Auteuill e (de novo)  Binoche e mais o seu filho pré-adolescente, que são assediados por fitas VHS que reproduzem horas de filmagem da rotina da sua própria casa. A tensão inicial por estarem a ser espionados dá lugar a um verdadeiro labirinto de culpas, desconfianças e jogos de aparência – que vão revelando segredos do passado e sentimentos de culpa nunca libertados. 
 
 
Caché

Um filme carregado de tensão e onde o jogo entre o que mostra e o que esconde é atingido pela perfeição da linguagem do realizador. Com um pleno domínio formal do estilo que ele próprio construiu, faz um dos seus mais belos filmes, onde uma das suas temáticas favoritas, a invasão da intimidade, torna-se o seu assunto fundamental – conforme explícito no título original (“Caché” ou “Escondido”).
 
“A Pianista”, por sua vez, segue uma professora de piano da Escola Conservatória de Viena. Embora extremamente respeitada pelos alunos, na intimidade tem uma vida solitária, às voltas com uma mãe dominadora e com taras sexuais diversas. Novamente a jogar com seus elementos favoritos: classe média, músicos, segredos, intimidade (e violação desta), foca mais na questão sexual que os seus outros trabalhos – mas com uma abordagem onde o sexo, mas do que apelativo, torna-se mesmo repulsivo e ondes as dores interiores superam as mutilações físicas. 

Em “O Tempo do Lobo”, Haneke mantém com mestria uma tensão constante e até irritante, bem como uma angústia que controla a audiência durante toda a película. Desta vez o desafio prende-se com o fim dos tempos, uma caracterização pessoal sem necessidade de qualquer espetáculo pirotécnico, ou de horror visual, para nos deixar plenamente cientes do dramatismo do final dos tempos. “Le Temp du loup” é um filme distante e frio. Somos alertados para isso logo no genérico inicial, um ecrã negro, os nomes da equipa a branco, tudo isto sem qualquer som, um espécie de embalo que nos prepara para o que aí vem.
 
 
O Laço Branco 
 
Finalmente, em «O Laço Branco» seguímos uma pequena aldeia no norte da Alemanha, na véspera da I Guerra Mundial, onde começam a surgir crimes misteriosos e cruéis, cujos principais suspeitos são um grupo de crianças. O bem e o mal acompanham toda a obra, muitas vezes aterradora e tensa, sendo particularmente de destacar a forma como as distorções morais dos valores contribuem para uma nova geração sociopata que revela nos atos as suas repressões.
CICLO – MICHAEL HANEKE – ESPAÇO NIMAS – 6 A 12 DE DEZEMBRO
6 de Dezembro – 21h30 – Funny Games – Brincadeiras Perigosas (35 mm)
7 de Dezembro – 21h30 – Código Desconhecido (35 mm)
8 de Dezembro – 21h30 – A Pianista (35 mm)
9 de Dezembro – 21h30 – Caché  – Nada a Esconder (35 mm)
10 de Dezembro – 21h30 – O Tempo do Lobo (35 mm)
11 e 12 de Dezembro – 21h30 – O Laço Branco (35 mm)

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