Festroia 2012: «The Foster Boy» (Adotado) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Pegando no caso particular de dois jovens nos anos 50, o suiço Markus Imboden visitou com este seu «Der Verdingbub» (The Foster Boy) num dos maiores tabus helvéticos e um assunto que ainda hoje dá que falar. «Verdingbub» significa “criança contratada”, uma prática muito comum e que vigorou no país de 1800 a 1960. Segundo a política da época, o estado podia retirar a custódia das crianças aos pais, caso estes fossem pobres, ou até filhos de pais separados. Muitas dessas crianças viveram assim um verdadeiro calvário emocional, sendo muitas vezes vítimas de abusos físicos e até sexuais nas mãos dos pais adotivos que eram donos das quintas.
 
E é isso que nos damos conta nesta obra, acompanhando ao pormenor os casos Max (Max Hubacher) e Berteli (Lisa Brand), dois miúdos que acabaram numa quinta regida por uma família que vive da lavoura. Max é órfão e o seu único prazer que tem parece ser o seu acordeão, especialmente depois do seu animal de estimação virar refeição na casa onde vive.  A escola é algo que gosta e só é pena que passe as aulas meio a dormir pois é obrigado a levantar-se de madrugada para trabalhar na quinta.
 
Já Berteli é um caso ligeiramente diferente. A sua mãe não tinha marido e a rapariga foi retirada com as irmãs à sua revelia e implantada neste novo (e disfuncional) agregado familiar.
 
Com interpretações seguras de todos os seus protagonistas, «The Foster Boy» sobressai pela forma emotiva com que conta a sua história sem cair em excessos dramáticos ou tentativas de puxar a lágrima fácil. Para isso muito contribui a sobriedade do realizador, muito atento ao pormenor e em ir mais longe do que apenas dar um tom simplista de amoralidade à questão. A sua fuga a filmar belos panoramas alpinos, e a sua preferência em mostrar interiores sujos (Max chega a dormir e comer perto dos porcos) demonstram o seu desejo em focar-se na apresentação de uma ruralidade arcaica, claustrofóbica e limitante, da qual Max quer fugir, com ou sem companhia.
 
Para além disso, Imboden preenche ainda algumas das suas personagens com pequenas histórias e dramas pessoais que conseguem encher mais o ecrã e garantem ao espectador um filme que vai um pouco mais além da rotineira história do coitadinho que sobreviveu a tantas contrariedades. A dita ruralidade, o alcoolismo, a subserviência, a falta de ambição, o ciúme e derradeiramente a resiliência são focos que atormentam esta fita, representando a cidade o escape perfeito para perseguir os sonhos.

O Melhor: Tinha tudo para ser um melodrama de fazer chorar as pedras da calçada e não o é.
O Pior: Algum facilitismo no tratamento da personagem de Berteli
 
 
 Jorge Pereira
 

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