Festroia 2012: «Any de Gràcia» (Ano de Graça) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Neste «Any de Gràcia», Ventura Pons rompe com a sua tendência recente em adaptar obras literárias contemporâneas de autores catalães («Mil Cretins», «Forasters», «A la Deriva», «La Vida Abismal») e volta um pouco aos primeiros tempos da sua carreira, criando assim uma comédia tipicamente catalã com tons coming-of-age que provavelmente vão remeter muita gente para «A Residência Espanhola», filme que os catalães responsabilizam pela invasão da cidade Barcelona por estudantes do programa Erasmus, e pela massificação do distrito de Gràcia como ponto festivo.
 
Aqui seguimos David, um jovem que abandona a pequena localidade onde vive para estudar em Barcelona. É aí que encontra um quarto na casa de uma senhora de 60 anos que, apesar de estar à espera de uma jovem, acede (para receber o subsidio pago pelo estado) em dar alojamento ao rapaz.
 
David é ambicioso, mas vive preso a um ambiente familiar onde o irmão – no estrangeiro – representa o seu maior ponto de contacto (via internet). O seu dom para a pintura leva-o a desejar uma orientação profissional nesse sentido, mas as coisas não estão famosas economicamente para uma juventude cujo triste fado é não ter futuro.
 
Aos rasgos juvenis perfeitamente normais para a idade de David, onde nem falta uma paixoneta, contrasta Gràcia, uma mulher de outra geração habituada a mandar e controla quem a rodeia e que tem como companhia um periquito “vigia” e o jogo de cartas que insiste em jogar e ganhar (nem que para isso seja batoteira).
 
É no duelo interpretativo e confronto em cena entre a veterana Rosa Maria Sardà e o prometedor Oriol Pla que o filme encontra a sua maior força junto do espectador, sendo ainda de referir que os secundários Amparo Moreno e Santi Millán esforçam-se acrescentar algo quando estão em cena, num filme que por vezes é simplista demais e não aproveita mesmo as deixas lançadas pelas suas personagens – como a antiga carreira teatral da idosa – para dar mais substância ao filme.
 
O facto do distrito de Gràcia (que partilha o mesmo nome com a idosa) ter um impacto menos importante do que merecia – já que a ação praticamente se resume ao interior de um café/bar e à habitação das personagens – acaba por reduzir o encanto do filme, que carece de alguma mística, carisma e da verdadeira originalidade (enredo e diálogos) que necessitava para chegar a um patamar mais elevado.
 
O Melhor: O duelo interpretativo e confronto em cena entre a veterana Rosa Maria Sardà e o prometedor Oriol Pla, nunca esquecendo o caso do «periquito»

O Pior: A sensação de já ter visto estes diálogos e esta história em outras personagens e filmes
 
 
 Jorge Pereira
 

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