Festroia arranca hoje com um «canibal» croata e com alguns candidatos ao Oscar no catálogo

(Fotos: Divulgação)

Começa hoje a 28ª edição do Festroia – Festival Internacional de Cinema, um dos eventos cinematográficos com maior história em Portugal e que decorre em Setúbal de 21 a 30 de setembro, desta vez já de regresso ao requalificado Fórum Luísa Todi e utilizando também o auditório Charlot.
 
Com mais de 180 filmes selecionados de 40 países (mais 29 que no ano transato), o certame aposta principalmente em obras europeias com interessantes carreiras em festivais, mas também a nível comercial nos países de origem, havendo particular incidência na Croácia, a nação em foco e que trará mesmo ao certame Rade Serbedzija, nome forte do cinema local mas uma vedeta internacional, tendo participado em filmes como «Missão Impossível 2», «O Santo», «Batman: A Origem», «Snatch- Porcos e Diamantes» e «O Americano Tranquilo».
 
Como foco desta 28ª edição, realce ainda para a mostra de thrillers europeus e uma programação específica para o mais novos a ter entrada gratuita, mediante o contato dos jardins de infância que manifestem interesse.

A História é sempre uma boa inspiração

 
Muitas são obras com interesse neste certame, e muitas são também escolhas presentes na programação que contam episódios da história mundial, sendo inevitavelmente a 2ª Guerra mundial, uma das fontes de inspiração. Basta lembrar, e só nos últimos anos, o filme checo «Tobruk», o holandês «Winter in Wartime», o Norueguês «Max Manus», os dinamarqueses «Flamen and Citron» e «The Hvidsten Group», os franceses «La Rafle» e «Sarah’s Key», para já nem falar do britânico «Resistance».
 
 
«Suskind»
 
No Festroia há pelo menos três filmes que merece realçar que contam pequenas histórias dentro do conflito e personagens impares que se destacaram nele. Um deles é «Suskind», filme baseado na vida de Walter Süskind, um judeu alemão radicado na Holanda que salvou centenas de crianças da deportação durante a 2ª Grande Guerra Mundial. Com a realização de Rudolf van den Berg, o cineasta responsável por “Tirza”, que também passou pelo Festroia há uns anos, esta é uma obra que mantém uma certa tendência europeia em não esquecer o conflito, os vilões e as vítimas.  
 
Depois há «Joanna», um filme que tem como pano de fundo a Varsóvia (Polónia) ocupada da II Grande Guerra. Uma mulher judia é levada pelas tropas alemãs, deixando para trás uma filhaa, Róża, que escapa casualmente e é encontrada, quase morta de fome e de frio, por uma mulher de classe média, Joanna.
 
Finalmente, e muito antes da austeridade atacar Atenas (Grécia), o país viveu o drama da invasão alemã (mais uma vez). «Apartment in Athens» foca-se nisso, pegando no caso particular de uma família que vive submissa em relação a um oficial germânico 
 

O tabu suíço
 
 

«The Foster Boy»
 
Ainda dentro dos pedaços de história colocados no grande ecrã, uma nota para «Der Verdingbub» (The Foster Boy), um filme assinado por Markus Imboden que se passa nos anos 50 e que acompanha um rapaz que é levado para trabalhar numa quinta como um «Verdingbub», ou seja, uma “criança contratada – uma prática muito comum e que vigorou no país de 1800 a 1960. Segundo a política governamental da época, o estado podia retirar a custódia das crianças aos pais, caso estes fossem pobres, ou até filhos de pais separados. Muitas dessas crianças viveram assim um verdadeiro calvário emocional, sendo muitas vezes vítimas de abusos físicos e até sexuais nas mãos dos pais adotivos que eram donos das quintas.


Drama e humor na parada Gay de Belgrado
 
 
«The Parade»

Um dos filmes mais curiosos na programação do Festroia é sem dúvida «The Parade», uma tragicomédia de costumes que tanto nos consegue colocar a rebolar no chão a rir, mas também tocar emocionalmente com um tema sério e reflexivo da tolerância e respeito nos países da antiga Jugoslávia.
No filme estamos na Sérvia, um país marcado pelo comunismo, pela guerra e pela autêntica paragem no tempo em termos sociais. Há anos que se tenta organizar uma parada gay, mas numa sociedade extremamente conservadora, em que a policia é cúmplice, as tentativas têm acabado sempre em atos bárbaros contra os homossexuais, continuamente espancados quando se assumem. Nesta história a atenção foca-se num casal de gays, um deles ativista e organizador de casamentos, o outro um veterinário que se afasta ao máximo das reivindicações. O primeiro é alvo de vários ataques e agressões da extrema-direita. O segundo vai se cruzar com um antigo veterano de guerra Sérvio (apelidado de “Limão”) que será obrigado pela esposa a defender a parada gay. Mas como localmente ele não consegue ajuda, este «gangster» terá de ir à Bósnia, à Croácia e ao Kosovo buscar alguns antigos conhecidos…


Uma mostra de filmes candidatos ao Óscar onde até não faltam «canibais»

 
«Vegetarian Cannibal»

 
Ainda antes de terem saído as escolhas dos países na corrida ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, já o Festroia tinha conquistado para a sua programação três obras. 
 
A primeira a destacar é «Vegetarian Cannibal», o candidato croata nesta categoria. As hipóteses deste filme ultrapassar a triagem da Academia de Hollywood e chegar aos cinco nomeados finais são mínimas. Não, aqui não existe literalmente um canibal vegetariano. Esta brincadeira do título é uma forma de mostrar a ambiguidade da personagem principal da obra, um ginecologista que não come carne, mas que se alimenta do drama e sofrimento dos outros. Este é um filme duro, cruel, grotesco por vezes. De abortos ilegais a corrupção assumida, o realizador de «Metastases» – que também passou em anos anteriores no Festroia – mostra uma Croácia suja entregue a párias que se alimentam do sofrimento alheio. Candidato ao Oscar? Não acreditamos, mas não por falta de qualidade. É demasiado duro para Hollywood.
 
Dá Eslovénia chega também a Setúbal «A Trip», filme sobre um trio de amigos que se reencontram após um afastamento temporário e onde a tensão de alguns assuntos por fechar irá afetar o resto das suas vidas e o seu relacionamento. Primeira obra de Nejc Gazvoda, o filme aborda temáticas diversas como a guerra do Afeganistão, a homossexualidade e a perda da feminilidade num contexto de jovens a tornarem-se adultos.
 
Finalmente, e da Holanda, surge «Kauwboy», a primeira longa-metragem de Boudewijn Koole. No filme seguimos Jojo, um miúdo de 10 anos que se relaciona com o pai numa zona rural. Já  a mãe, diz-se que está em tournée nos EUA, mas na verdade é um tema que o pai tenta não abordar. Conseguirá o pequeno lidar com as violentas mudanças de humor do pai e derrubar as barreiras que cercam o seu coração? 
 
Pode consultar toda a programação e informação adicional no site do Festroia 

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