Super-bem organizado, servido por salas de cinema de luxo e titular de uma programação que inclui o melhor cinema do ano, ainda que parte tenha já passado nos maiores festivais (Cannes, Veneza e Berlim). Só não destrona Cannes pela imbatível seleção de estreias mundiais. E é cada vez mais um prolongamento, ainda que mais mainstream de Veneza, pois complementa a luxuosa programação com muitos dos mais fortes lançamentos americanos da rentrée e potenciais candidatos aos Óscares. Torna-se, por isso mesmo, um certame incontornável para a imprensa mais especializada. Motivos mais do que sobra para que o TIFF (Toronto International Film Festival) se confirme como um dos principais festivais de cinema do Mundo. O C7nema enfrentou as filas de sedentos espectadores e integrou-o na sua lista must.
Estes foram os filmes que mereceram a nossa atenção no TIFF:
{xtypo_rounded2}Looper/Reflexo Assassino, de Rian Johnson
Rian Johnson, nome a reter. Convincente a forma e o meio como Rian (Brick, 2005) articula este thriller em que agentes regressam do futuro para liquidar alvos estratégicos.
A ideia de brincar com as viagens no tempo tem uma janela de curiosidade, no facto de ser usada por gangues pagos com prata para alterar o futuro. Mesmo que seja para cometer um suicídio antecipado. É esta a missão que o “looper” Joe (Joseph Gordon-Levitt) recebe do patrão (Jerff Daniels): a missão de liquidar o seu “eu” no futuro (Bruce Willis). O problema é que ele gosta do que tem e entende não ter chegado ainda a hora da despedida. Jogo de gato e rato bem resolvido por um guião complexo, que motiva a nossa atenção para o tornar credível. Emily Blunt usa o seu melhor sotaque americano num papel feminino onde arregaça as mangas para cortar lenha e defender a sua cria. No entanto, é no duelo Levitt-Willis que Looper ganha consistência nesta alucinante viagem.
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{xtypo_rounded2}The Place Beyond the Pines, de Derek Cianfrance
Mostrou ser um dos realizadores com mais cinema para mostrar. A experiência de Blue Valentine deixou em Ryan Gosling a vontade de regressar a este tipo de cinema vivido. Pois com Cianfrance é regra instalar-se uma espécie de comunidade que vive dentro do set.
Ryan é Luke, um duplo que usa a motocicleta em espetáculos itinerantes acabando por aliar essa destreza numa série de assaltos a bancos por forma a providenciar a mulher (Eva Mendes) e o filho que já vivem com um outro homem. O mais curioso é que a partir de um registo perfeitamente delineado de heist film continuado – sim, sobra aqui algum resquício da personagem de Drive, de Nicolas Winding Refn -, algo sucede que nos remete para something completely different.
Ryan sai de cena e entra Bradley Cooper para um drama policial, político e familiar, pois unirá os filhos de Cooper e Gosling. É grande o cinema de Cianfrance. Depois daquele soberbo drama amoroso, um intrigante filme em duas partes de dimensão épica.
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{xtypo_rounded2}Hyde Park on Hudson, de Roger Mitchell
Aqui está um filme que pode vir a surpreender nas escolhas dos Óscares. Até porque tem aquele perfume de história real, e com membros da família real britânica. Sim, os ecos de O Discurso do Rei estarão por aqui, apesar deste projeto ter avançado primeiro.
Mas há o cheiro de sexo a envolver o Presidente Roosevelt (magnífico Bill Murray) com a prima afastada Daisy (adequada Laura Linney), bem como a vista do rei gago Jorge VI (Samuel Best) e da rainha Isabel (Olivia Colman) tendo em vista a angariação do apoio americano para a causa da guerra eminente. Digamos que são ingredientes suficientes para cativar a atenção da Academia. Até porque o sul africano Roger Mitchell, realizador de Notting Hill, é eficaz nesse cozinhado gerado a partir da descoberta da correspondência entre Daisy e Roosevelt, tornada pública após a sua morte, aos 100 anos. Há dois anos, O Discurso do Rei começou em Toronto a sua campanha vitoriosa para o Óscar. Agora, só mesmo o tom demasiado pastoral e levezinho poderá suavizar esse desejado selo.
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{xtypo_rounded2}Byzantium, de Neil Jordan
O irlandês Neil Jordan regressa aos vampiros. E acrescenta mulheres fatais sedentas e muito sexy em constantes revisitações ao seu passado secular. Pelo meio, um a adequada pulsão adolescente a fazer ponte entre o romance teen ao estilo Twilight e o lado mais gore de Entrevista com o Vampiro. Gemma Arterton e Saoirse Ronan asseguram ambos os lados da questão. Infelizmente, essas constantes oscilações temporais pouco mais não fazem do que nos distrair de uma narrativa que carece de maior substância.
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{xtypo_rounded2} Argo, de Ben Affleck
Um dos filmes mais aguardados do ano deve parte do seu hype ao notável serviço que Ben Affleck tem realizado atrás da câmara. E na forma como resolve o episódio do resgate dos reféns detidos no Irão, em plena revolução de 1979, agora encarada a uma nova luz, confirma-o até como realizador com que o estúdio poderá entregar maiores missões.
Até porque Affleck demonstra conhecer bem as regras do entretenimento de Hollywood. É bem verdade que o guião de Argo se presta a isso mesmo, pois encena a criação de uma produção de cinema fictícia que irá penetrar no Irão com uma equipa para procurar locais de filmagem para o filme de ficção científica Argo. O objetivo é trazer de volta a casa os reféns da embaixada canadiana disfarçados dos restantes elementos da equipa.
Assim se inicia uma das mais bizarras operações da CIA orquestrada pelo operacional Tony Mendez (Ben Affleck). Essa tentativa de criar a aparência de um sucedâneo de A Guerra das Estrelas, que estreara em 1977, reclama mesmo alguns dos melhores momentos. Mas mais do que quando procura instalar um clímax made in Hollywood para justificar a perseguição final com a fuga in extremis em Teerão. Fica para o final a irónica piada retirada deste filme convincente, regularmente usada como uma espécie de nome de código, que fará furor durante a temporada dos Óscares: “Argo fuck yourself”!
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{xtypo_rounded2} Seven Psychopaths, de Martin McDonagh
O autor de In Bruges recupera a companhia de Colin Farrell, como um argumentista irlandês em Hollywood a viver uma crise de inspiração. É a partir desta moldura que vemos tomar lugar no ecrã uma narrativa que procura impor um ritmo mais sério em detrimento do resultado mais sanguinário do filme anterior. Isto se conseguir evitar que o amigo (Sam Rockwell) o convença a colaborar num guião intitulado Seven Psychopaths. Inevitavelmente, trilhará um percurso com algum verter de hemoglobina, aliada ao mais puro delírio narrativo. Christopher Walken, em grande forma, e Woody Harrelson, como sempre, ajudam a manter o filme num satisfatório (des)equilíbrio de loucura.
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{xtypo_rounded2} The Sessions, de Ben Lewin
Mark O’Brien habituou-se a viver as quase totais limitações físicas conferidas pelas sequelas de uma poliomielite aos seis anos de idade. Remetido a uma marquesa e com respiração artificial possibilitada por um ”pulmão de ferro”, Mark fez muito mais do que apenas viver. Tirou um curso de literatura e abraçou a atividade jornalística e a poesia. A vontade de superar o desconhecimento do sexo levou-o a contratar uma terapeuta de sexo. É precisamente nesta meia dúzia de sessões práticas que narra o filme de Lewin. E pelos elementos biográficos e temáticos seria fácil antecipar-se um dramalhão piegas. Mas é aí que o guião e a presença de um muito perspicaz John Hawkes (O’Brien) e uma acutilante Helen Hunt fazem com que o filme se tornasse num dos mais indicados aos Óscares. Bem feito.
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{xtypo_rounded2}Anna Karenina, de Joe Wright
Poderia ter sido um desafio maior do que a vida e destinar-se ao fracasso, mas este recriar a obra de Tolstoi a partir do ambiente de um teatro acaba por dar os seus frutos. Inegável é mesmo o luxo visual que assume todo o ambiente cénico que extrapola os limites do teatro e ganha vida num ambiente dominado pelo cinema. E é mesmo a câmara de Wright que nos seduz em cada movimento.
Mas tudo isto ficaria plano sem o desenvolvimento dramático das personagens. Ao tratar-se de Keira Knightley, historicamente calhada para assumir papéis de grande relevo dramático em ambiente de época, é fácil de perceber como o resultado dificilmente não estará sob o escrutínio de diversas categorias oscarizáveis.
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{xtypo_rounded2} Cloud Atlas, de Andy e Lana Wachowski, Tom Tykwer
Quase três horas, ao fim de vários anos de avanços e recuos de produção, eis que a adaptação da obra de David Mitchell se torna realidade. Um ramalhete de personagens, diversas e divididas pelo imenso cast, onde o sexo acaba por não ser relevante. Percebe-se o investimento colossal para uma produção independente que perpassa as seis histórias separadas, ainda que interligadas e separadas por continentes e séculos, com um génio compositor, um jornalista em investigação de conspiração, um editor, uma cadeia de fast-food. Diante de tal novelo narrativo, cabe mérito ao trio de realizadores em captar a mensagem de universalidade. Complexo, sim; confuso, talvez. Mas a mensagem está lá: nem que seja no melhor momento de uma das personagens de Tom Hanks, como um britânico diletante e excêntrico que atira com naturalidade um crítico pela varanda de um prédio…
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{xtypo_rounded2}End of Watch, de David Ayer
É bom saber que Ayer é o homem de Training Day (2001) e Street Kings (2008), policiais urbanos bem próximos da LAPD e da atividade dos gangs locais. É a praia dele, por assim dizer. Pois foi isso que viveu durante a adolescência. Mas End of Watch é o melhor de Ayer. Desde logo, pelo estilo de câmara subjectiva, algures entre o efeito videojogo e a brincadeira (aparentemente comum entre a ‘força) de registar as operações com suporte de micro-câmaras ou mesmo telemóvel. Jake Gyllenhaal e Michael Peña fazem dupla na zona problemática de South Central. Filme musculado, com alguns momentos alucinantes. Seguramente, um crowd pleaser, à procura de emoção policial vistosa.
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{xtypo_rounded2}The Act of Killing, de Joshua Oppenheimer
Foi possivelmente o filme mais marcante dos que vimos em Toronto. Realizado por um dinamarquês e co-financiado pelo alemão Werbner Herzog, este explosivo documentário atreve-se a mostrar os autores dos genocídios de meados dos anos 60 na Indonésia e os métodos que usavam para a matança. Nunca julgados, nunca condenados, sorriem para a câmara e explicam como se inspiravam nos filmes mais sádicos de gangsters para cumprir a sua missão.
O sorridente Anwar Congo, um dos caciques das milícias Pancasila (que também estiveram implicadas nas matanças de Timor Leste), demonstra mesmo para a câmara como eliminavam comunistas de uma forma mais limpa, usando um fio de aço atado ao pescoço da vítima e puxando uma extremidade. Ainda que vá confessando que se “sente perseguido por essas memórias”, por isso admite que procura esquecer cantando, dançando, ou fumando marijuana e consumindo ecstasy. Registos impressionantes mostram comícios da Pancasila exaltando os méritos do trabalho dos “gangsters” ou “homens livres”, segundo o significado da palavra. “Precisamos do trabalho dos gangsters para fazer o que temos a fazer”, exaltava um ministro num comício. Anwar Congo arrepia quando recorda com nostalgia a vida de “relax and Rolex”, antes de encenar uma cena de um filme “dentro do filme” com os amigos em papéis de grotescas personagens de gangsters. No final, saímos de um documentário sobre uma realidade e um passado que nem parece sequer ser questionado pelo actual governo indonésio. Um dos filmes mais marcantes do ano que merece passar em todos os festivais de cinema documental.
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